HISTÓRIA DA ELETRICIDADE - IDADE MODERNA
   A partir do século XVI começaram a ser desenvolvidos estudos que pudessem levar a alguma explicação mais científica sobre o assunto. É o caso, por exemplo, das pesquisas efetuadas pelo médico inglês W. Gilbert, considerados por muitos como sendo o pai da eletricidade, sobre a hipótese do eflúvio. No seu livro De magnete, publicado em 1600, é apresentado, além daqueles relacionados ao magnetismo, os resultados de suas experiências realizadas com um aparelho por ele mesmo inventado e denominado de versorium. Este era constituido de uma seta de madeira apoiada em um suporte vertical que girava ao ter uma de suas extremidades aproximada de um corpo sob efeito âmbar, ou seja, eletrizado por atrito. Os termos eletrizado, eletrização, atração elétrica e força elétrica foi então usado pela primeira vez.
    Apesar de bem sucedido em suas experiências passou despercebido ao médico inglês a existência do fenômeno da repulsão entre dois corpos eletrizados. Mais tarde, porém, após a sua morte, o jesuita italiano Nicolo Cabeo estudou o caso. Em virtude das suas constatações a teoria do eflúvio não pode mais ser sustentada, pois só era capaz explicar o fenômeno da atração entre corpos eletrizados e não o da repulsão entre estes.
    Coube ao cientista francês François Dufay, no início do século XVIII, dar continuidade ao estudo da repulsão eletrica, iniciado por Cabeo. Pelo fato de um corpo atraido por outro, eletrizado, ser repelido depois de tocá-lo, por ficar também eletrizado, Dufay, em princípio, achou que dois corpos eletrizados sempre se repelem. Modificou depois esta hipótese ao notar que um pedaço de vidro atritado com seda atraia um pedaço de âmbar atritado com pele. Após realizar diversas experiências ele defendeu a hipótese de que existia dois tipos de eletricidade, ou seja, uma vítrea, que surgia num pedaço de vidro, e outra resinosa, que surgia num âmbar, que é uma resina, quando atritados.
    A partir dessa verificação Dufay concluiu que os corpos com eletricidade de mesmo nome se repelem e com nomes diferentes se atraem. A explicação dada por ele sobre a razão destas duas espécies diferentes de eletricidade tinha por base a existência de dois tipos de fluidos elétricos, chamados por ele de vítreo e resinoso. Assim, num corpo normal, não eletrizado, estes dois fluidos encontram-se distribuídos de forma misturada em quantidades iguais. No momento em que o vidro é atritado com a seda acontece a passagem, na mesma proporção, de fluido vítreo da seda para o vidro e de fluido resinoso do vidro para a seda. Desta forma o vidro fica com excesso de eletricidade vítrea e a seda com excesso de eletrididade resinosa.
J.C. Maxwell - Pai do eletromagnetismo moderno

    De tal hipótese Dufay concluia que a eletricidade não era criada pelo atrito de um corpo, uma vez que os fluidos já existiam nos corpos e que a fricção de um sobre o outro servia apenas para redistribuir esses fluidos. Essa teoria, com grande aceitação na época, passou a ser conhecida pelo nome de teoria dos fluidos que servia para explicar todos os fenômenos conhecidos até então relacionados com a eletridade.

    Durante o século XVIII muitas experiências com corpos eletrizados foram realizadas, alcançando uma divulgação tal que acabou tornando-se uma forma de diversão bastante popular, com espetáculos em praças públicas, que atraia um grande público.

    O cientista norte americano Benjamin Franklin após ter assistido a uma dessas apresentações ficou interessado em estudar os fenômenos elétricos. Passou então a realizar um número bastante significativo de experimentos, considerados de grande relevância para o conhecimento científico da eletricide. De grande importância foi a contribuição sua da hipótese do fluido único. Ela apresenta uma certa semelhança com a de Dufay, embora Franklin, provavelmente, não tivesse dela qualquer conhecimento, uma vez que ambas estavam sendo formuladas na mesma época e em continentes diferentes. A terminologia usada por Franklin não era a mesma apresentada por Dufay. Para ele o corpo que recebesse o fluido elétrico ficava eletrizado positivamente e o que perdesse eletrizado negativamente, correspondendo isso, respectivamente, à eletricidade vítrea e à eletricidade resinosa de Dufay.

    Assim como na teoria de Dufay, também para Franklin não existia a criação ou destruição de eletricidade no processo de eletrização, havendo assim uma conservação da carga elétrica. Em virtude dos pontos básicos serem os mesmos foi possível a convivência dos cientistas da época com as duas propostas pois dependendo da conveniência do momento passavam a utilizar ou uma ou outra dessas teorias.

    É bom lembrar que apesar dos erros que apresentam essas teorias, dos dois fluidos e do fluido único, não estão tão distantes das idéis existentes no mundo atual sobre a constituição da matéria, ou seja, a existência de dois tipos de cargas elétricas nas partículas que compõem um corpo material,(aproximação com a primeira teoria) e também que no atrito entre dois corpos somente uma dessas cargas elétricas passa de um deles para o outro (aproximação com a segunda teoria). Neste último caso a única diferença é que enquanto para Franklin a transferência acontecia através das cargas positivas, pelas teorias atuais são as negativas, os elétrons, que se locomovem.

    Além do que foi dito acima, não podemos esquecer do trabalho efetuado pelo alemão Otto von Guericke, sessenta anos após a publicação do livro de W. Gilbert, com a sua máquina para eletrizar corpos. Constituida de uma pequena bola de enxofre fixada a uma manivela, ela servia para produzir eletricidade por atrito. Isso acontecia quando se girava a manivela com uma das mãos mantendo a outra, munida de uma luva, encostada na bola de enxofre que, por ficar eletrizada passava a atrair pequenos corpos próximos a ela. A eletrificacão conseguida chegava ao ponto de produzir faiscas durante o tempo em que a luva estivesse atritando a bola de enxofre.

    Até a metade do século XVIII os fenômenos elétricos não passavam ainda do plano empírico-qualitativo sem que fosse estabelecido qualquer relação quantitativa entre as grandezas envolvidas nos mesmos. Uma das preocupações dos cientistas era conhecer a relação entre o valor da força elétrica F entre dois corpos afastados um do outro por uma distância r. As hipóteses feitas durante as décadas de 1760 e 1770 era que tal como na lei da gravitação universal de Newton as forças elétricas de atração e repulsão deviam variar de acordo com o quadrado da distância entre elas. O físico e engenheiro Charles Augustin Coulomb, por volta de 1780, através de um aparelho por ele inventado, denominado balança de torção, conseguiu comprovar quantitativamente essa hipótese medindo o valor da força de atração e repulsão entre dois corpos eletrizados. Descobriu também que elas eram proporcional ao produto das cargas elétricas das esferas utilizadas na balança. Desta forma chegou a resultados definitivos da primeira lei fundamental da eletricidade, que acabou depois recebendo o seu nome.