Revista Eletrônica de Ciências
São Carlos,  Número 49, Junho 2011

O Sistema de Informação Geográfica (SIG) como Instrumento de Percepção Ambiental e a construção de material didático de apoio ao estudo das Bacias Hidrográficas.

 

Bertazi, M. H.;
Assaf, E. M.;
Santos, S. A. M.

 

A inserção do indivíduo como observador dos processos que constituem a dinâmica de uma bacia hidrográfica é fundamental para a compreensão do meio ambiente no qual se está inserido. A análise das interferências ocasionadas pela ação antrópica no cenário natural permite avaliar a distribuição espacial dos distintos impactos ambientais e relacioná-los aos conflitos da expansão urbana sobre o ambiente. Neste contexto, a análise de cartas e mapas de uma bacia hidrográfica apresenta-se como uma satisfatória ferramenta na percepção ambiental, pois, a partir de uma base de dados simples, pode-se construir abordagens específicas (mapas de declividades, áreas de preservação, estradas, etc.) que auxiliam na compreensão dos impactos ambientais.

A bacia hidrográfica constitui uma unidade natural, cujo elemento integrador é representado por canais de drenagem, em que a água é um elemento referencial, porém não se trata de um sistema ambiental fechado, pois se relaciona com outros elementos do meio natural como: relevo, solo, subsolo, flora, fauna e com componentes antrópicos (atividades econômicas, político-administrativas, culturais, etc.).

A percepção ambiental, segundo Marin et. al. (2003), aborda as distintas relações do ser humano com o mundo, que se revelaram ao longo da história das civilizações. Assim, a educação ambiental surgiu, em um primeiro momento, atrelada ao conceito de conscientização ambiental. Essa educação, segundo Scatena (2008), corrobora em um processo a partir do qual os indivíduos depreendem o funcionamento do ambiente e os modos de interferência que lhe causam.

A percepção ambiental, como compreensão das distintas interações entre os seres humanos e o ambiente, aliada ao conceito de educação ambiental, contribui para a adequada compreensão da dinâmica de uma bacia hidrográfica.

Para que a visualização de uma bacia hidrográfica fique clara no contexto da percepção ambiental, torna-se interessante o emprego de mapas temáticos, que utilizam diferentes abordagens gráficas (cores e hachuras) para representar os dados relacionados à área de interesse.

A elaboração desses mapas é facilitada por programas computacionais denominados SIGs (Sistemas de Informações Geográficas), que são um “conjunto de programas, equipamentos, metodologias, dados e pessoas (usuário), perfeitamente integrados, de forma a tornar possível a coleta, o armazenamento, o processamento e a análise de dados georreferenciados, bem como a produção de informação derivada de sua aplicação”. (FILHO e IOCHPE, p. 6, 1996)

O conjunto de tecnologias direcionadas à coleta e tratamento destas informações é denominado geoprocessamento o qual disponibiliza ferramentas, recursos e dados para que se possa determinar a evolução temporal e espacial de um determinado fenômeno geográfico e sua inter-relação com os demais cenários. Este processo caracteriza uma área multidisciplinar, que abrange distintas áreas do conhecimento, como Geografia, Estatística, Matemática, Engenharia, Levantamentos de Campo, Ecologia, Legislação, dentre outras. (FILHO e IOCHPE, p. 8, 1996)

A utilização da ferramenta SIG, deste modo, torna-se relevante em diversas áreas de aplicação, sendo comum no planejamento urbano, em institutos de pesquisas e em alguns segmentos de setores industriais. Além disso, pode se relacionar aos diferentes usos do solo na agricultura, no gerenciamento de bacias hidrográficas, controle de queimadas e emissões de poluentes, gerenciamento florestal de desmatamento e reflorestamento, etc. (FILHO e IOCHPE, p. 9-10, 1996)

A estruturação de um trabalho em SIG é realizada por meio de um computador e de um software adequado. A partir de dados pré-existentes de um local (curvas de nível, drenagens, lagos, aglomerados urbanos etc, elabora-se um banco de dados capaz de armazenar e relacionar todas as informações nele contidas, de acordo com a necessidade operacional (mapas temáticos).

O auxílio à percepção ambiental pode se dar por vários instrumentos, sendo a elaboração de material didático uma importante ferramenta na construção de conceitos e elucidação de fatos. O emprego de mapas como material de apoio, além de localizar o indivíduo e inseri-lo em uma bacia hidrográfica, faz com que todos os componentes existentes possam ser visualizados por meio de ângulos distintos, o que torna mais acessível o estudo das relações entre cada elemento do território. O emprego de mapas temáticos, portanto, tem papel fundamental na percepção do ambiente de estudo e faz com que o observador compreenda os processos envolvidos no contexto de uma bacia hidrográfica.

Os mapas apresentados neste trabalho foram elaborados no Centro de Divulgação Científica e Cultura da Universidade de São Paulo (CDCC-USP) dentro do Programa Aprender com Cultura e Extensão da Pró Reitoria de Cultura e Extensão. Os mapas fazem parte do conjunto de materiais de apoio sobre as visitas científicas monitoradas que o centro disponibiliza para os professores e estudantes da Educação Básica (detalhes em www.cdcc.up.br/biologia).

 

Sub Bacia Hidrográfica do Córrego do Fazzari

 Tratando-se de uma trilha realizada em área de Cerrado (“Trilha da Natureza”), com características específicas, torna-se imprescindível a localização dos pontos de visita e contextualizá-los no espaço. Pode-se, deste modo, verificar a proximidade das áreas de vegetação com aquelas de intervenção antrópica, como edificações e estradas.

 

Figura 1 : Mapa Tridimensional da Sub Bacia Hidrográfica do Córrego do Fazzari.

 

Figura 2 : Mapa da "Trilha da Natureza".

A Figura 1 apresenta a visão tridimensional da sub bacia hidrográfica do córrego do Fazzari, sendo que as diferentes cores representam as diferentes curvas de nível. No mapa pode-se observar como o relevo relaciona-se com a drenagem, direcionando toda a água pluvial para o curso principal e que a trilha insere-se próxima ao corpo hídrico (sendo um dos pontos de visita a própria mata de galeria). Pode-se, também, perceber como a trilha percorre diferentes altitudes do terreno, sendo o ponto da mata galeria, justamente, o mais baixo da sub bacia, além da proximidade das estradas da região com a trilha e com a drenagem

A Figura 2 exemplifica uma visão bidimensional do terreno analisado onde pode-se verificar os diferentes usos do solo da região da “Trilha da Natureza”, como a área de plantação de eucalipto (em verde). Além disso, observam-se os caminhos e trilhas existentes no local, além das estradas que o perpassam.

 

Sub Bacia Hidrográfica do Córrego do Gregório

Sendo esta bacia consideravelmente urbanizada, torna-se relevante contextualizar as drenagens meio às edificações antrópicas e traçar as Áreas de Preservação Permanente (APPs), estipuladas por legislação específica (CONAMA, 2002), e que, visivelmente, não são respeitadas ( Figura 3). Como material didático, oferece subsídio necessário para a percepção de quais processos negativos podem estar envolvidos nessa infração (enchentes, deslizamentos de terra, erosão, assoreamento, etc.).

O perfil tridimensional elaborado, Figura 4, tem interessante resultado na medida em que localiza as ruas no relevo e possibilita a projeção do escoamento pluvial. Isso se torna útil na determinação de áreas com maiores potenciais erosivos e, didaticamente, demonstra a importância do adequado planejamento urbano.

Pode-se, ainda, perceber pelos mapas temáticos e pelo perfil tridimensional, como o ambiente da bacia hidrográfica varia de acordo com o grau de interferência antrópica, quanto à presença de construções, classes de declividade, dentre outros e qual a importância de se manter áreas com vegetação natural no processo de urbanização de uma cidade, além de se respeitar a capacidade suporte do ambiente a ser interferido.


Figura 3 : Mapa de Declividade e APPs da Sub Bacia Hidrográfica do Córrego do Gregório.

Figura 4 : Mapa Tridimensional da Sub Bacia Hidrográfica do Córrego do Gregório.


O trabalho realizado mostra que a construção dos mapas temáticos utilizando um SIG é um aliado no contexto da percepção ambiental, pois facilita o entendimento dos envolvidos (estudantes e professores) sobre os processos que regem a dinâmica de uma bacia hidrográfica. A importância desse material relaciona-se à contextualização dos diferentes mecanismos de interação antrópica com o ambiente, que, se avaliados de uma perspectiva homogênea, tornam-se confusos ou sobrecarregados, ao passo que a visão individual, expandida ao coletivo, mostra-se satisfatória na compreensão gradual dos fenômenos ocorrentes.

A visão tridimensional de uma bacia hidrográfica na compreensão dos processos de drenagens pluviais, contribuem para a aprendizagem sobre o conceito de “divisores de águas”, que separam fisicamente áreas de drenagens distintas.

A localização de mosaicos de utilização dos solos (malha urbana, represas, agricultura, remanescentes de vegetação, etc.) viabiliza o contexto da expansão urbana e demonstra como a pressão demográfica pode influir no cenário natural e modificá-lo positiva ou negativamente. Insere, deste modo, conceitos de planejamento ambiental, ao demonstrar que existem áreas passíveis de ocupação humana e áreas de preservação necessárias. Assim, mapas bidimensionais e tridimensionais adquirem caráter complementar ao enfatizar distintas abordagens e visões de uso e ocupação do solo de um mesmo local de análise.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 FILHO, Jugurta Lisboa, IOCHPE, Cirano. Introdução a Sistemas de Informações Geográficas com Ênfase em Banco de Dados. 10ª Escuela de Ciencias Informáticas, Departamento de Computación, Universidad de Buenos Aires, Argentina, 1996.

MARIN, Andréia Aparecida, TORRES OLIVEIRA, Haydée y COMAR, Vito. A educação ambiental num contexto de complexidade do campo teórico da percepção.INCI, Outubro. 2003, vol. 28, nº. 10, p.616-619. ISSN 0378-1844.

CONAMA, 2002: Resolução 303, de 20 de Março de 2002, do Conselho Nacional do Meio Ambiente. Dispõe sobre parâmetros, definições e limites de Áreas de Preservação Permanente.

SCATENA, Lúcia Marina. Ações em educação ambiental; análise multivariada da percepção ambiental de diferentes grupos sociais como instrumentos de apoio à gestão de pequenas bacias – Estudo de caso da microbacia do Córrego da Capituva Macedônia, SP. Tese apresentada à Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo, como parte dos requisitos necessários para a obtenção de Título de Doutor em Engenharia Hidráulica e Saneamento. São Carlos, 2008.