Revista Eletrônica de Ciências
São Carlos,  Número 49, Junho 2011

A seringueira e a importância da borracha natural no Brasil e no mundo

 

Rodrigo Souza Santos
Biólogo, Dr. em Agronomia - Entomologia Agrícola;
Pesquisador da Embrapa Acre – Rodovia BR- 364, Km 14, CP 321, CEP 69908-970, Rio Branco, AC .
E-mail: santos_rss@hotmail.com

 

 

A seringueira é uma árvore de grande porte e ciclo perene pertencente à família Euphorbiaceae (Figura 1). Dentre os gêneros pertencentes a esta família, destacam-se Ricinus (mamona), Manihot (mandioca) e Hevea (seringueira). A classificação atual do gênero Hevea compreende 11 espécies de seringueiras, tendo como seu centro de origem a região Amazônica, nas margens de rios e lugares inundáveis de mata de terra firme, ocorrendo preferencialmente em solos argilosos e férteis. A espécie Hevea brasiliensis Müell. Arg. é considerada a mais importante do gênero por possuir a maior diversidade genética e alta produtividade de látex (borracha natural). Além de ser nativa do Brasil, a seringueira também está presente na Bolívia, Colômbia, Peru, Venezuela, Equador, Suriname e Guiana.

Figura 1. Interior de um talhão de seringueira em Itiquira, MT. (Crédito da foto: Rodrigo Souza Santos).

 

A partir da saída de seu habitat natural, a seringueira passou a ser cultivada em grandes monocultivos, principalmente nos países asiáticos. No Brasil, seu cultivo obteve grande sucesso nas regiões Sudeste, Centro-Oeste, na Bahia e no oeste do Paraná. A seringueira é uma espécie arbórea, de crescimento rápido, apresentando grande capacidade de reciclagem de carbono ( 1 hectare de seringueira retira aproximadamente 1,4 toneladas de gás carbônico da atmosfera por ano), convertendo-o em látex e madeira. As plantas podem atingir até 30 m de altura sob condições favoráveis, iniciando aos quatro anos a produção de sementes e, aos sete anos, em média, a produção de látex. Entretanto, nem todas as espécies de seringueira são arbóreas, já que Hevea camporum e Hevea camargoana são arvoretas e arbustos de campo. A espécie pertence ao grupo das dicotiledôneas, com flores unissexuadas, pequenas e amarelas. Possui folhas compostas com três folíolos membranáceos e sem pêlos (Figura 2A), o fruto é uma cápsula que, geralmente, apresenta três sementes grandes ( 2,5 a 4 cm), marrons e de forma oval (Figura 2B).

 

Figura 2. A. Folha de seringueira com sintomas de ataque do percevejo-de-renda;
B.
Aspecto externo de sementes de seringueira. (Créditos das fotos: Rodrigo Souza Santos).

 

A borracha natural obtida pelo extrativismo teve seu ciclo de exploração no século XIX até início do século XX, levando a região amazônica a um período de grande prosperidade econômica. A partir de 1912 esse extrativismo começou a entrar em decadência, devido, principalmente, a dois fatores: a entrada no mercado internacional de borracha oriunda dos países asiáticos, onde o cultivo se fazia intensivo, e o surgimento da doença conhecida como “mal-das-folhas”, causada pelo fungo Microcyclus ulei (P. Henn.), comum nas regiões quentes e úmidas.

Além deste fungo, a seringueira está sujeita ao ataque de pragas, principalmente com o aumento da área plantada e a adoção de monocultura em áreas extensivas. Um complexo de ácaros e insetos está associado ao cultivo da seringueira no Brasil, destacando-se os ácaros Calacarus heveae Feres (Figura 3) e Tenuipalpus heveae Baker e, um inseto conhecido como percevejo-de-renda da seringueira, Leptopharsa heveae (Figura 4).

 

Figura 3. Microscopia eletrônica de Calacarus heveae Feres
(Imagem extraída do trabalho de Ferla & Moraes, 2003 – Aumento: 10.000X).

 

O percevejo-de-renda percevejo pode causar redução no diâmetro do colo das mudas de seringueira em até 44,5% e na produção de látex em até 30%, pois suga a seiva elaborada das folhas, causando desfolha precoce e debilitando as árvores, pois diminui a área fotossintetizante das mesmas.

Figura 4. Exemplar adulto do percevejo-de-renda na face inferior de um folíolo de seringueira
(Crédito da foto: Fernando da Silva Fonseca – Aumento: 100X).

 

Os países asiáticos Tailândia, Indonésia, Malásia, China e Vietnã, são os mais importantes produtores mundiais de borracha natural, respondendo por cerca de 90% do total. Atualmente, o Brasil ocupa o nono lugar na produção mundial, correspondendo a aproximadamente 1,4% do total. Em âmbito nacional, os estados de São Paulo, Mato Grosso, Bahia e Espírito Santo são os principais produtores, sendo São Paulo responsável pela maior parcela da produção nacional, o que lhe confere a condição de principal produtor de borracha natural do Brasil. Somente esse Estado possui 14 milhões de hectares aptos à heveicultura.

A importância da seringueira é devida à qualidade da sua borracha que combina leveza, elasticidade, termoplasticidade, resistência à abrasão e à corrosão, impermeabilidade a líquidos e gases, isolamento elétrico, bem como capacidade de adesão ao tecido e ao aço. Embora a borracha natural, em alguns casos, possa ser substituída pela borracha sintética, a impossibilidade de se produzir quimicamente um polímero com as mesmas qualidades do natural, faz com que ela tenha características únicas, sendo empregada, principalmente, na confecção de luvas cirúrgicas, preservativos, pneus de automóveis e caminhões. A indústria de pneumáticos consome aproximadamente 80% da borracha natural produzida. Nesse sentido, a produção de borracha natural se torna imprescindível na fabricação de uma série de artefatos de suma importância na vida do homem moderno, em praticamente todos os países, Estados e municípios.

No contexto mundial, projeções indicam que o consumo crescerá mais que a produção e alguns especialistas estimam que no ano de 2020 o consumo de borracha natural será de 9,71 milhões de toneladas para uma produção de 7,06 milhões de toneladas. Neste sentido, a renovação de seringais antigos e o incremento de novos, além da manutenção de um preço favorável da borracha natural no mercado internacional, são medidas que devem ser adotadas para suprir o déficit da mesma no Brasil e no mundo.

 

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