Revista Eletrônica de Ciências
São Carlos,  .
Número 28, Setembro / Outubro / Novembro de 2004 Artigo

A Questão do Lixo em Barretos

Aparecida Donizete de Lima
Sheila Horácio
Alunas do curso de Licenciatura em Química e Física da UNIFEB - Centro Universitário da Fundação Educacional de Barretos

A comunidade urbana de Barretos gera 80 toneladas de lixo por dia, o que equivale a quase 1 quilograma por habitante, e esta quantidade tende a aumentar. Para equacionar o problema, o poder público municipal precisa recorrer a modos eficientes de gestão ambiental e são necessárias ações educativas para incentivar a população a produzir menos lixo. Coletar significa recolher nas ruas o lixo que foi acondicionado por quem o produziu para encaminhá-lo, mediante transporte adequado, a uma possível estação de transferência, para eventual tratamento e, depois, à disposição final.

Infelizmente e cidade não tem coleta seletiva institucionalizada do lixo. Apenas há alguns catadores informais e independentes que realizam este trabalho. É feita apenas a diferenciação entre lixo hospitalar e domiciliar, sendo que 60% deste último é composto de material orgânico que poderia ser utilizado como adubo após sofrer processo de compostagem. O lixo domiciliar, que inclui o que é produzido nos estabelecimentos comerciais urbanos, é coletado em caminhões compactadores e o hospitalar em caminhonetes do tipo baú.

 
Os "três erres" para uma produção consciente de lixo: Reduzir o consumo, reutilizar os materiais e reciclar.
Note como reciclar é o último passo.

Em comunidades urbanas, a coleta é absolutamente necessária para evitar inúmeros problemas de saúde. A coleta e o transporte do lixo domiciliar (produzido em imóveis residenciais, em estabelecimentos públicos e no pequeno comércio de uma cidade) são de responsabilidade do governo municipal e, em geral, efetuados pelo órgão municipal encarregado da limpeza urbana. Para estes serviços, os municípios podem usar recursos de mão de obra e equipamentos próprios da prefeitura, de empresas contratadas para este fim ou também sistemas mistos, como aluguel de viaturas e utilização de mão de obra da prefeitura. Em Barretos, o serviço é feito por uma companhia especializada. Estabelecimentos que produzem mais de 180 litros de lixo por dia são chamados "grandes geradores" e devem custear a remoção dos seus resíduos, contratando empresas particulares, devidamente cadastradas e autorizadas pela prefeitura. Durante a "Festa do Peão de Barretos", devido à vinda de mais de meio milhão de turistas, aumenta muito a quantidade de resíduos sólidos, principalmente em hotéis, restaurantes, bares, etc.

A coleta de lixo domiciliar deve ser efetuada em cada imóvel, sempre nos mesmos dias da semana e em horários regulares. Somente assim os cidadãos criarão o hábito de acondicionar o lixo em recipientes ou embalagens adequados e colocá-los nas calçadas, em frente aos seus imóveis, nos dias e horários adequados para o recolhimento. Desta forma, o lixo domiciliar não ficará exposto, a não ser pelo tempo necessário à execução da coleta. Tendo a convicção de que ocorrerá o recolhimento no momento esperado, a população não jogará lixo em qualquer local, evitando prejuízos do aspecto estético dos logradouros e, principalmente, colaborando para a saúde de todos, inclusive de animais domésticos.

O tempo de permanência do lixo no logradouro é um assunto que merece especial atenção em cidades turísticas devido aos aspectos estéticos, emissão de odores e atração de vetores de transmissão de doenças em humanos e animais. A regularidade da coleta é portanto um dos mais importantes atributos do serviço. Acordos internacionais estabelecem que o tempo decorrido entre a geração do lixo domiciliar e seu destino final não deve exceder uma semana, para evitar proliferação de moscas, aumento do mau cheiro e a incidência de animais roedores, insetos e outros. A freqüência mínima de coleta admissível em cada país de clima quente, como o Brasil, é de três vezes por semana.

Barretos atende a estas disposições. O lixo não fica armazenado por mais de um dia. É transportado para o aterro sanitário e coberto com terra ao final de cada dia. Aqui a coleta é feita em dois turnos, um começando às 7 horas e outro às 19 horas, de segunda–feira a sábado. Na região central, onde predomina o comércio, a coleta é diária e noturna, quando as ruas estão com pouco movimento. Nos bairros residenciais ela é feita durante o dia, 3 vezes por semana. Parcela significativa da população habita conjuntos de edifício residenciais com no máximo 4 andares. Nestes locais a coleta é feita diariamente e durante o dia.

O trabalho noturno requer uma série de cuidados com relação ao controle de ruídos. As guarnições devem ser instruídas para não alterar as vozes. O comando de andar/parar o veículo, por parte do líder, deve ser efetuado através de interruptor luminoso adicionado na traseira do veículo e o silenciador deve estar em perfeito estado. O motor não deve ser colocado em alta rotação para apressar o ciclo de compactação, devendo existir um dispositivo automático de aceleração, sempre operante. Veículos mais modernos e silenciosos, talvez até elétricos, serão necessários, no futuro, para atender às crescentes reclamações da população, especialmente nos grandes centros urbanos.

Em Barretos a coleta de lixo é feita de modo bastante razoável mas é necessário que sejam implantadas medidas para diminuição da geração de lixo. Umas das medidas mais urgentes são a coleta seletiva e a organização dos catadores em cooperativas (para facilitar o acesso aos grandes compradores de produtos recicláveis). Em Barretos, ainda não há coleta seletiva do lixo, mas espera-se que este processo seja iniciado no próximo ano. A criação de políticas ambientais nos países desenvolvidos despertou o interesse da população de Barretos pela questão dos resíduos sólidos e pela preservação do meio ambiente.

O aumento da quantidade de lixo por habitante produzido na cidade, fruto do modelo de alto consumo da sociedade capitalista, começou a preocupar ambientalistas e a população, tanto pelo seu potencial poluidor quanto pela necessidade permanente de identificação de um sítio para aterro dos resíduos. Entre as alternativas para o tratamento de redução dos resíduos sólidos urbanos, a reciclagem é a que desperta o maior interesse na população, principalmente pelo seu forte apelo econômico e ambiental. Outro aspecto relevante é que a implantação de programas de reciclagem estimularia o desenvolvimento de uma maior consciência ambiental e dos princípios de cidadania por parte da população barretense. O grande desafio para a implantação de programas de reciclagem em Barretos é buscar um modelo que permita a sua auto-sustentabilidade econômica. Os modelos mais tradicionais, implantados em países desenvolvidos, quase sempre são subsidiados pelo poder público e são de difícil aplicação em países em desenvolvimento. Embora a escassez de recursos dificulte a implantação de programas de reciclagem, o município de Barretos vem procurando modelos alternativos adequados às suas condições econômicas. Porém, de acordo com as pesquisas realizadas, o município conta apenas com catadores liberais e independentes, não possuindo cooperativas que organizem estas pessoas. Os catadores catam e revendem estes materiais para compradores de cooperativas e estes, por sua vez, os revendem por preço mais alto.

  
Para quem trabalha com as cooperativas de reciclagem de lixo, há uma questão de respeito pelo ser humano, de dignidade, que pode ser analisada como tão (ou mais) importante que a questão ambiental.

Alguns municípios têm procurado dar também um cunho social aos seus programas de reciclagem de lixo, formando cooperativas de catadores que atuam na separação de materiais recicláveis existentes no lixo. A principais vantagens da utilização de cooperativas de catadores são:

Essa economia pode e deve ser revertida para as próprias cooperativas, não exatamente na forma de recursos financeiros, mas sim em investimentos em infra-estrutura, como galpões de reciclagem, carrinhos padronizados, prensas, elevadores de fardos, empilhadeiras, uniformes, de modo a permitir melhores condições de trabalho e a valorização dos produtos catados no mercado de recicláveis. É importante que os municípios que optem por este modelo ofereçam apoio institucional para a formação das cooperativas, principalmente no que tange à cessão de espaço físico, de assistência jurídica e administrativa (para a legalização) e, como já dito antes, fornecimento de alguns equipamentos básicos. Um dos principais fatores que garantem o fortalecimento e o sucesso destas cooperativas é a boa comercialização dos materiais recicláveis. Os preços serão tão melhores quanto menos intermediários existirem no processo até o consumidor final, que é a indústria de transformação (fábricas de garrafas de água sanitária, por exemplo). Para isto é fundamental que sejam atendidas às seguintes condições:

Estas condições dificilmente serão obtidas por pequenas cooperativas, sendo uma boa alternativa a criação de centrais para a negociação direta com as indústrias transformadoras, com melhores condições de comercialização. Após a implantação de uma cooperativa de catadores, é importante que o poder público continue oferecendo apoio institucional, de forma a suprir carências básicas que prejudicam o bom desempenho da empresa, particularmente, no início de sua operação. Dentre as principais ações que devem ser feitas no auxílio de uma cooperativa, destacam-se:

Em fase inicial, considerando a pouca experiência das diretorias das cooperativas, o poder público poderá também auxiliar na comercialização dos materiais recicláveis. Caso haja dificuldade, fruto de variações no mercado comprador, é recomendável que a cooperativa conte com um pequeno capital de giro, de forma a assegurar um rendimento mínimo aos catadores, até o restabelecimento de melhores condições de comercialização.

A catação de lixo está se tornando um negócio viável e rentável, que pode tirar da miséria uma parcela da população que já vive muito próxima do lixo, com pouca saúde e educação, além de nenhuma dignidade. Vamos, pois, nos empenhar todos na diminuição da produção de lixo em respeito à natureza e na reciclagem, em respeito aos nossos iguais, humanos habitantes deste planeta.


© Revista Eletrônica de Ciências - Número 28 - Setembro / Outubro / Novembro de 2004.