| Revista Eletrônica de Ciências | ||
| São Carlos,
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Número 26, Abril de 2004 | Artigo |
Henrique Ferraz
Estudante de Arquitetura e
Urbanismo da
Escola de Engenharia de São Carlos - USP
e-mail: henriqueferraz_arqurb@yahoo.com.br
| A Proporção na Grécia Antiga |
A Matemática durante o processo de Continuidade
Histórica |
A
matemática é uma das ferramentas mais importantes do
homem,
pois, através dela, buscamos compreender o mundo e a nós
mesmos. Todas as leis da Física só são
possíveis graças ao entendimento do universo pela
matemática. Nossa estrutura psicológica requer um
conceito de ordenação e de harmonia: nós obtemos
este conceito através da matemática, mais especificamente
através dos sistemas de proporções
matemáticas. Logo, podemos ter na matemática a linguagem
humana mais abstrata e que utilizamos para entender a tudo que nos
cerca.

Na busca pela
harmonia, nos deparamos com dois estados que, à primeira vista,
parecem antagônicos, porém, especialmente dentro do
universo
das artes, complementam-se. O desejo pela beleza e ordem se misturam
entre
um instinto irracional tanto quanto um impulso intelectual. E é
no meio artístico que podemos ver como eles se relacionam: o
artista, através da sua habilidade (controlada pela
razão) tenta exprimir seus sonhos no suporte de sua arte - a
consciência que guia o inconciente, o lado humano controlando e
trabalhando o lado irracional.


Outra
questão que precisa ser explicitada já de início
é a diferença entre razão e
proporção. Basicamente, razão é uma
divisão, o qüociente de dois números. Já um
sistema proporcional consiste
em relacionar duas razões dentro de uma igualdade, criando assim
um elo entre elas.

Até as
civilizações clássicas (Grécia e Roma
Antigas), a arquitetura, a arte e a filosofia sempre se vincularam
à religião e conceitos de vida e morte. Inclusive, era
muito comum nestes períodos haver o vínculo entre
religião e política, ou seja, o conceito de
civilização teocrática. Foi na Grécia
Antiga, com suas cidades-estados e seus respectivos cidadãos
livres, que o homem pode ter uma autonomia do pensamento, sem o
compromisso prévio de acatar uma verdade oficial. Assim,
é na Grécia que surge as origens dos pensamentos
matemáticos como ciência teórica, que discutiremos
a seguir.

Pitágoras de Samos
(582 a.C. - 497 a.C.)
é considerado o fundador da geometria teórica. Em seus
pensamentos sobre a estrutura do universo, razões e
proporções, ele elaborou uma teoria que vinculava a
música, o espaço e os números. Em duas cordas, de
mesmo material, sob mesma tensão e sendo a primeira o dobro do
comprimento da segunda, quando tocadas, a corda mais curta irá
emitir um tom uma oitava acima da corda mais longa, devido a sua
freqüência ter o dobro do valor. Ou seja, a
relação de 1:2 compreende a relação sonora
de uma oitava. Se dividirmos a corda mais curta pela metade, obtendo a
relação de 2:4, o tom será de duas oitavas acima
da corda inicial. Por outro lado, a relação de 3:4 nos
dá um tom uma quarta acima do tom inicial, e a
relação de 2:3
apresenta um tom uma quinta acima. Desta maneira, Pitágoras
elaborou relações entre sons, o tamanho das cordas e as
razões de 1:2:3:4. Ainda sobre os pensamentos
pitagóricos, podemos obter três tipos de
proporções:







Euclides de Alexandria (365 a.C. - 300 a.C.) também teve grande importância para a história da geometria. Ele elaborou a teoria da proporção áurea, onde dois números (X e Y, por exemplo) estão em proporção áurea se a razão entre o menor deles sobre o maior for igual ao maior sobre a soma dos dois (ou seja, X/Y = Y/X+Y). Esta proporção estabelece um coeficiente áureo, onde se pode analisar que, basicamente, tudo que se encontra na natureza está inscrito nesta proporção, seja o corpo humano, uma colméia de abelhas, uma estrela do mar, uma concha, etc.
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Após o período clássico, as bases matemáticas se mativeram e foram endossadas ou negadas, de acordo com os períodos históricos e suas respectivas conjunturas sociais, políticas, culturais, religiosas e econômicas. Antes de iniciarmos este capítulo, devemos nos atentar para mais um conceito que nos servirá de base para uma melhor compreensão destes períodos: a continuidade histórica.
Durante a
história da humanidade, as ideologias dominantes, em seus
respectivos momentos, ora afirmavam antigos conceitos, ora negavam
idéias passadas. Isto não quer dizer que, ao acatarem
alguma antiga versão como verdade oficial, estava-se revivendo
algum momento histórico: um novo contexto sempre traz
modificações na idéia original, o que faz
significativas mudanças de valores. O mesmo acontece quando
temos a negação de certos princípios: ao negar um
modelo, acabamos por criar um contra-modelo, de maneira que, se
iniciarmos um processo investigativo, conseguiremos resgatar neste
contra-modelo as bases do que foi negado. Assim podemos ver que nem
tudo que se afirma é realmente o objeto afirmado, assim como nem
tudo que se nega necessariamente é algo distante daquilo que foi
recusado.
A
estética medieval (um período em que as idéias
religiosas tinham grande peso) se apoiou nas bases do pensamento
platônico como a estrutura de sua ideologia. Quadrados e
triângulos equiláteros serviram de base para a
construção de igrejas medievais, seja como elementos
simples, seja como trama reticulada. Outra figura geométrica de
grande importância neste período foi o triângulo
pitagórico, o único triângulo retângulo que
tem lados em progressão aritmética (3, 4 e 5 ou
múltiplos destes valores). Podemos ver também nas igrejas
góticas mais uma regra: a inscrição de quadrados
menores nas diagonais de quadrados maiores.




Durante o
Renascimento, os cânones do pensamento neo-clássico
tentaram reconciliar Pitágoras e Euclides a seu tempo: se o
homem é uma criação divina, pode este mesmo homem
produzir obras que remetam à harmonia divina? Pode o homem
fazer o trabalho de Deus? Neste momento, houve muita importância
para os
conceitos de proporções harmônica e, principalmente, áurea.

Na verdade, por mais
que se neguem ou se afirmem os conceitos em diversos momentos
históricos,
não podemos dizer que um sistema proporcional é correto e
não os outros. No período medieval acreditava-se que a
regra estava dada e tanto o homem, a natureza ou qualquer outro tema
observado devia-se aplicar nesta regra. O Renascimento fez o caminho
inverso: foi da observação da natureza e do homem
que se buscou retirar as regras já existentes em sua
constituição, buscando assim uma harmonia entre as partes
e o todo.




Não existe um
sistema correto em meio a tantos outros. Para cada momento
histórico uma situação gerou ideologias
dominantes, mas como toda ideologia dominate, esta era apenas a
visão da maioria. O que muda são apenas os contextos,
enquanto as filosofias acabam por se complementar ao longo dos
séculos, engrandecendo a história da humanidade.
Sítios
© Revista Eletrônica de Ciências - Número 26 - Maio de 2004.