| Revista Eletrônica de Ciências | ||
| São Carlos,
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Número 23, Janeiro de 2004 | Artigo |
Nosso ex-presidente, Fernando Henrique
Cardoso, em ocasião do
"Seminário Internacional Centro XXI", disse que “não
há mais como nos confortarmos com a cidade no sentido
clássico; temos megalópoles, cidades mundiais, o que
é um fenômeno bastante complicado. São Paulo
será, talvez, no Brasil, a principal candidata à
categoria de cidade mundial”.
Ao iniciar o artigo sobre a
metrópole paulistana devemos levar em conta as realidades
brasileiras no contexto global,
e desta maneira vem à tona inúmeras questões:
São Paulo
hoje é realmente uma cidade global? Para todos seus moradores?
Qual trecho de
São Paulo segue um padrão mundial – isto é,
quantas São Paulo existem (ou co-existem)? Afinal, o que
é uma cidade global: ou melhor, em que difere uma cidade global
das tradicionais cidades?

De acordo com a arquiteta e urbanista Raquel Rolnik, a cidade, em sua forma tradicional, é uma organização eminentemente política e social, onde cidadãos são vinculados à esfera pública por meio de direitos e deveres. As antigas fronteiras citadinas (bem definidas) delimitam seu território físico, o qual é considerado como forte pólo de atração populacional, desde a revolução industrial. Neste espaço urbano, um local é fundamental como essência da cidade: o centro, palco dos conflitos e atuações de todos os grupos representados na cidade.
Porém, enquanto
construção coletiva, a cidade se
modifica na mesma medida que a sociedade que a compõe. Durante o
último século, as atividades econômicas de maior
expressão mudaram e, com elas, mudou a cidade. De grandes
indústrias, as novas ações do capital se encontram
no setor terciário (comércio e serviços
prestados). Não existem mais os antigos conceitos de limite,
já que a cidade deixou de ser regida pela política para
ser de domínio econômico – também modificado, pois
o capital dos novos tempos não é mais tão fixo (ou
nacionalizado), mas flutua, na forma de capital especulativo,
atrás de terrenos mais atrativos (graças aos
avanços da informatização). Assim, suas fronteiras
“fagocitam” outras cidades limítrofes, num ritmo cada vez mais
acelerado – processo conhecido como conurbação, ou
formação de metrópoles. Também
resignificado, o indivíduo deixou seu papel coletivo e
político de cidadão, ao ser abstraído de seus
direitos, e diminuído, agora, com o principal dever de pagar
suas taxas – transforma-se então em contribuinte. O papel
político, na cidade de hoje, se concentra nas mãos de um
poder público, cada vez mais distante do coletivo e reduzido
através da lógica neoliberal de Estado mínimo: aos
poucos, este papel se transfere às iniciativas privadas por meio
de ingerências, parcerias onde o financiamento do projeto
público passa pelas mãos de altos executivos. Mais que
meras mudanças, a cidade contemporânea, tida como imagem
publicitária, uma cidade-mercadoria, em essência, a
cidade-consumo, em busca de investimentos através do marketing,
numa bolha de imagens e simulacro, reflete a
espacialização destas modificações, tempos
sobrepostos no espaço.
As cidades globais atuam como centros decisórios, conectando, através das novas tecnologias, alguns poucos trechos do mundo pela alta densidade de fluxos de informações e do capital financeiro (quer dizer, o capital flutuante que se enraíza em pequenas “ilhas de sofisticação”), e, através da mídia de massa, define a opinião pública e interfere nas mais variadas áreas, de forma bastante eficaz – ao menos, eficaz de acordo com o seu interesse. Aliás, a mídia de massa, associada à indústria cultural, atua na deformação de realidades, construindo um simulacro por colagens fragmentárias do real, sem referência temporal (causalidades, conseqüências e processos históricos) ou espacial (a anulação do entorno imediato por um ambiente virtualizado). É nessa troca, do real pela ficção, que se dita uma arte não democratizada, de consumo rápido e puro modismo publicitário. A troca da cultura (direito universal de cidadania) pela indústria cultural (de caráter repetitivo, evento de consumo, consagração de fórmulas já consagradas, e, por fim, insensível à realidade) é problemática, o que pode ser lido em quatro momentos essenciais:
A atual forma econômica modifica os espaços urbanos, desconcentrando as metrópoles, ancorando as grandes corporações multinacionais, adulterando a si mesma e incorporando o aumento da informatização. Como conseqüência, amplia mais ainda a acumulação capital, a exclusão social e o desemprego, já que as novas tecnologias não são de fácil acesso ou domínio popular, assim como, tanto o setor terciário emprega menos pessoas que a indústria, quanto a atual indústria também tem menos funcionários que sua versão mais antiga. Desta forma, uma nova configuração espacial vai transformando as cidades contemporâneas, ampliando tanto a favelização das periferias sem limites (regiões cada vez mais desequipadas de investimentos públicos, distantes do centro e das áreas de maior oferta de empregos), como também se ampliam os condomínios e shoppings centers, afastados da região central (numa medida altamente defensiva da classe economicamente alta, como que se esta se enclausurasse em bunkers de altíssima segurança e controle).





Cenas
comuns em São Paulo: edifícios altamente
tecnológicos, exclusão social e poluição
visual.
“A variante paulistana da americanidade é essa capacidade de ser duplo, triplo, quádruplo, cristão e pagão, engenheiro de informática e filho de Xangô, pragmático e sonhador, disponível para o transe e para as vagabundagens mais loucas da imaginação e dominando perfeitamente a realidade. A metrópole brasileira consegue conciliar essas contradições sem dissociação esquizofrênica.
Em São Paulo, a gente se sente no Ocidente. Matéria plástica, vidro, concreto, arranha-céus, shopping centers, que destronam, há muito, os supermercados, mas também as antigas livrarias onde se pode adquirir livros do século XVIII (...). Nessa megalópole, que tem algo de Manhattan dos trópicos e que exporta hoje seus produtos industrializados para o Terceiro Mundo, os modelos culturais continuam a vir de fora – da Europa e dos Estados Unidos – e logo se transformam em modismos, são suplantados rapidamente por outros e assim sucessivamente.
(...)
São Paulo tornou-se uma das cidades mais cosmopolitas
do mundo: italo-franco-lusitano-nipo-germânico-saxâ. Mas
não nos enganemos, não é a Europa ou a
América do Norte com alguns detalhes exóticos. Tomar
São Paulo por pedaço da Europa ou uma réplica de
Nova Iorque é nada compreender de Mário de Andrade ou
Tarsila do Amaral. Por toda parte, a civilização
mistura-se ao primitivismo indígena e aquilo que deixaram os
herdeiros dos escravos africanos, cujos atabaques ressoam desde as oito
horas da noite, em milhares de terreiros. (...)
(...) A redução de São Paulo à sua ocidentalidade é uma ilusão.”
| AGLOMERADOS URBANOS (1) | PAÍSES | POPULAÇÃO (EM MILHÕES) |
| Tóquio | Japão | 26,4 |
| Cidade do México | México | 18,1 |
| Bombaim | Índia | 18,1 |
| São Paulo (2) | Brasil | 17,8 |
| Nova Iorque | Estados Unidos | 16,6 |
| Lagos | Nigéria | 13,4 |
| Los Angeles | Estados Unidos | 13,1 |
| Calcutá | Índia | 12,9 |
| Xangai | China | 12,9 |
| Buenos Aires | Argentina | 12,6 |
| Fonte:
ONU / IBGE / Fundação Seade. (1) Aglomerado Urbano
é o território contíguo habitado com densidade
residencial, desconsiderando-se os limites administrativos;
(2) Refere-se à Região Metropolitana de São Paulo. |
||
| POPULAÇÃO
RESIDENTE (EM MILHÕES DE HABITANTES) |
||||||
| Área abrangida |
1960 |
1970 |
1980 |
1991 |
1996 |
2000 |
| Brasil |
70,191 |
93,139 |
119,003 |
146,825 |
157,080 |
169,799 |
| Estado
de
São Paulo |
12,824 |
17,772 |
25,041 |
31,589 |
34,121 |
37,032 |
| Região
Metropolitana de São Paulo |
4,791 |
8,140 |
12,589 |
15,445 |
16,583 |
17,879 |
| Município
de São Paulo |
3,783 |
5,825 |
8,493 |
9,646 |
9,839 |
10,434 |
| Fonte: IBGE, Censos demográficos. | ||||||
A morte da memória urbana escreve e reescreve sua história, apagando constantemente seu passado, para marcar, a cada dia, novas relações de poder, não mais num movimento de explosão urbana, mas agora de implosão, gerado pela saturação física de seus limites urbanos, pela tentativa de valorização das áreas citadinas, pela migração interna de população e investimentos e pela mudança do caráter econômico da cidade e suas conseqüências, o que gera duas velocidades aos fluxos da cidade: a dos incluídos (no sistema) e a dos excluídos (da cidadania). Crescimento urbano acelerado, dinâmico e autofágico: são movimentos causadores da existência de tal configuração espacial. Os grandes vazios da malha urbana atuam como estoques para investimentos especulativos, que produzem novos espaços sem expandir as fronteiras e deixam um rastro degradado na paisagem urbana – enfim, o território tratado como mercadoria absoluta.

Acompanhe o crescimento da mancha
urbana: em 1910, durante a República Velha; em 1930, com o fim
da República do Café e após
a 1ª Guerra Mundial; em 1952, após a 2ª; em 1972, no
fim do período do milagre econômico; por fim, em 2001, as
manchas azuis e verdes representam a densidade urbana.
São Paulo não ficará fora do mercado mundial, até porque o mercado não deixará de lado dezesseis milhões de habitantes. E no encontro – do capital com a cidade –, é a arquitetura que celebra este casamento, recompondo ruínas e adaptando a metrópole para as novas necessidades globais. Assim, a crítica à cidade paulistana contemporânea deixa de ser exatamente uma intervenção construtiva para tornar-se uma adaptação reformista em favor dos mercados – com os fluxos econômicos voláteis, o espaço não deixa de existir, mas precisa de um local com uma estrutura material para abrigá-lo (a mais completa possível). A cidade, sem um futuro previsível, muito menos otimista: basicamente, quatro movimentos explicam o que ocorre na metrópole paulistana, os quais discutiremos a seguir.
Em
primeiro lugar, uma periferia não-oficial (por ausência de
investimentos ou equipamentos públicos),
autoconstruída e precária, num crescimento tão
acelerado quanto o ritmo da exclusão social, transforma, assim,
a maioria da cidade (maioria em área e em
população) numa grande gleba de exclusão
sócio-urbana, que cai no esquecimento ou fica à espera de
um ataque especulativo. É na opção mais barata, em
uma cidade extremamente cara, que se abriga tal
população, geralmente contratada para os serviços
menos qualificados e, conseqüentemente, menos remunerados (o que
torna tal situação um ciclo vicioso, apagando a pobreza
como ator social no palco da cidade).

São
visíveis tanto as novas favelas quanto o
inchaço das favelas existentes, como reflexo local da crise
econômica mundial, decorrente de um neoliberalismo que se
alimenta da exploração e da exclusão. Somam-se
ainda vários fatores, tais como:
Definindo como precárias as relações de trabalho, as resoluções de conflitos ou ainda a ação violenta e preconceituosa da força policial, esta situação acarreta numa explosão de violência urbana jamais vista: altos números de homicídios entre a população pobre e a segregação espacial, que criam uma intrínseca relação habitat / violência – a segregação apresenta-se como reflexo e também motor indutor da desigualdade. A cargo de ilustração, estatísticas apresentam que a cada cem mil habitantes, dez são mortos como vítimas da violência urbana no Alto dos Pinheiros (bairro nobre da região sudoeste da cidade) para cada duzentos e vinte dois mortos no Jardim Ângela (zona sul da cidade, próxima ao Capão Redondo, e considerada a terceira região mais violenta do mundo). Tais estatísticas vão contra a idelogia construída pela mídia em geral, que aponta a elite como a maior vítima da violência urbana (e, conseqüentemente, os pobres como agressores).
Associado a este problema está uma indústria
política – resquícios de um país arcaico –, que
muitas vezes se apresenta como paternalista ou clientelista, com a
troca votos por favores políticos, próximo às
eleições (os quais substituem os direitos de cidadania),
e, por outro lado, o desenvolvimento de normas e condutas extralegais,
impostos à comunidade local, ora com o uso da violência,
ora aceitos normalmente, como substituição a um poder
público inexistente. Estas condições (de limite
tênue de uma guerra civil e da segregação espacial
inerente) acabam por serem ocultadas através de diversos meios:
Assim, numa ardilosa construção ideológica, oficializa-se a cidade virtual, escondendo assim a cidade real. Na cidade visível, a lei se aplica: há cidadania. Na periferia, as leis criadas são não-oficiais, mas tal ocupação irregular é consentida nestes guetos, o que não é visto com bons olhos no centro – temos assim a exclusão do direito à cidade. A exceção como regra e a regra como exceção: é necessário romper tal ideologia para dar maior visibilidade à cidade da maioria gritante da população, ignorada pela sociedade.




A segunda caracterização da condição paulistana atual são os programas públicos de habitação popular, insignificantes pela pequena abrangência, devido à grande demanda da população. Na última década, esta condição se divide em três momentos, coincidentes com os partidos assumidos pelas gestões públicas municipais.
Após analisar os movimentos da cidade que envolvem a população economicamente mais pobre, cabe agora observar, num terceiro momento, os investimentos capitais maciços, começando pelo setor sudoeste da cidade, definido por alguns pensadores como as “novas centralidades paulistanas”. Tal conceito é duvidoso, senão perverso, perigoso e ideologicamente trabalhado, o qual iremos debater ao longo do capítulo.
O primeiro passo para este novo rumo do capital se deu na década de 1960, durante o período do “milagre econômico brasileiro”. Neste momento, houve uma invasão (permitida e incentivada pelo poder público) do capital estrangeiro no país, e, em especial, em São Paulo. O alvo foi a avenida Paulista e suas imediações. A avenida, aberta em 1891 como o novo boulevard da elite cafeeira, ainda conservava, no início dos anos 1960, os antigos casarões dos barões do café, com grandes jardins e plantas raras e exemplares. Em pouco tempo, inúmeras demolições deram lugar a grandes edifícios, representantes das corporações multinacionais que aqui se instalaram, fazendo da Paulista a avenida dos grandes bancos, o coração financeiro da cidade. A lógica que se segue tem a mesma raiz.
Logo
em seguida, nos anos de 1980 e 1990, o eixo sudoeste expandiu
os limites físicos da cidade, por meio de um movimento de
valorização progressiva em novas frentes especulativas –
financiadas por maciços investimentos, públicos e
privados –, deixando um rastro urbano de deterioração. Os
novos alvos do capital se encontram na marginal do rio Pinheiros, nas
avenidas Brigadeiro Faria Lima (como ligação da Paulista
com a Pinheiros), Luís Carlos Berrini, e por último a
avenida das Águas Espraiadas. Nelas, podemos encontrar
inúmeros edifícios altamente tecnológicos (“de
costas” para a cidade), supervalorizando o espaço privado em
detrimento do público, que só se viabilizaram por meio
das aberturas de avenidas e da infra-estrutura necessária,
cedida por um poder público interessado apenas em organizar os
interesses da elite econômica.

O ato de projetar cidades à maneira pós-modernas modificou-se em pouco tempo: outrora defendeu propostas frente à racionalização da cidade moderna e o crescimento desordenado destas, concertar sem destruir, refazer sem desalojar, restaurar, criando a partir do que está dado, reatando vínculos tradicionais, requalificando o entorno e valorizando as peculiaridades locais acima das tendências globais, como defesa da cidade contra a ideologia vigente. Mas o discurso pregado hoje por estes arquitetos defende apenas atuações pontuais, restritas e modestas. Contra-prova da falência do sistema global, acaba desintegrando a cidade da periferia para o centro, administrando contradições, escamoteando conflitos e escondendo a miséria. Ao mesmo tempo, afirma os processos mundiais como adaptações locais formalizadas, num crescimento industrial hipertardio, com conseqüente substituição e descarte de trabalhadores, acumulados nas periferias ao longo de cento e cinqüenta anos. Nesta lógica, os bairros de elite se adensam, trazendo consigo comércio e serviços de luxo. Quando a Arquitetura maquia atividades extra-urbanas (do campo da política e do marketing, muitas vezes), perde o controle da cidade, a qual se torna de domínio econômico dos administradores: o território urbano se torna meio de produção e acumulação capitalista.

Exemplos
de edifícios às margens do rio Pinheiros: alta tecnologia
e auto-suficiência para não precisar andar pela cidade.
Os
novos tempos trazem à cidade um novo papel, inserindo-a na
ciranda internacional do capitalismo avançado.
Desmaterialização, desterritorialização e a
busca de legislações trabalhistas e ambientais mais
maleáveis levantam uma questão: se o capital é
definido como flutuante e volátil, por que ele se enraíza
aqui e não em outro lugar? Porque, na verdade, ele não
é tão virtual assim, como dizem: os altos executivos
necessitam de uma rica infra-estrutura, que vai da via expressa (de
trânsito de veículos, mas também de
informações) à escola particular onde ele
irá matricular seu filho, passando por hotéis de luxo,
casas de espetáculos (que ofereça arte extremamente
requintada), conexões com aeroportos, heliportos, shopping
centers, etc. Também é lógico, dentro do
raciocínio do capitalismo contemporâneo, que o caos urbano
e as contradições entre o ultra-moderno e o arcaico
não atrapalhem a produção, mas é a
produção que se adapta, da melhor forma possível,
a estas realidades, para aumentar a exploração sobre os
trabalhadores e os exorbitantes lucros conseqüentes –
possíveis aqui, na periferia do capitalismo.
O que questionamos no início do capítulo é a definição destas áreas de investimentos privados como novas centralidades. O conceito de centro, neste caso, refere-se ao poder econômico, mais especificadamente, à afirmação deste. Porém, o sentido do centro é outro: local de conflitos, espaço de convergência e representação de todas as classes sociais, enfim, a cidade como pública. Das praças generosas do centro histórico, passamos às largas calçadas da avenida Paulista, em seguida para os passeios públicos medianos da avenida Brigadeiro Faria Lima, terminando no calçamento de oitenta centímetros da avenida Luís Carlos Berrini e da marginal do rio Pinheiros. Se houver a inversão de valores, nesta ardilosa ideologia capitalista, a violência continuará a crescer indefinidamente, enquanto os executivos buscam novos sistemas de segurança ao invés da cidade ser pensada como um espaço mais justo.
O quarto momento de discussão, o centro histórico de
São Paulo, é considerado aqui em sua área
expandida, ou seja, da região da Luz até a praça
da República, o que compreende uma área de,
aproximadamente, trinta e dois quilômetros quadrados. O centro
ainda conserva as atividades da Justiça e a Bolsa de Valores de
São Paulo, além de um intenso comércio de
caráter popular, especializado e diversificado, mas foi
desfigurado por diversos fatores, como anúncios sem controle ou
limitações, a extrema intensidade do comércio
sobrepujando os espaços públicos, um grande fluxo de
veículos individuais em ruas que não o comportam, o
enorme esvaziamento de seus edifícios (cerca de quarenta mil
unidades, como já citado no capítulo anterior, geradas
pela fuga das grandes corporações e das sedes do setor
bancário rumo ao vetor sudoeste) e um grande número de
habitações precárias e cortiços.

Assim,
a atual forma de atuação nesta área
segue em duas frentes. De um lado, a habitação no centro
(já discutida no capítulo sobre habitação
popular), que se reforça com o retorno de inúmeras
secretarias públicas (municipais e estaduais) ao centro, como o
caso da Prefeitura (que saiu do Palácio das
Indústrias para se alojar ao lado do viaduto do Chá, no
“Banespinha”) ou do edifício Martinelli, também ao
lado do vale do Anhangabaú, e que hoje abriga treze secretarias
municipais, como por exemplo, a SEMPLA (Secretaria Municipal de
Planejamento), a SAS (Secretaria de Assistência Social) e a
EMURB
(Empresa Municipal de Urbanização). Esta medida objetiva
levar de volta
ao centro todos os funcionários das secretarias (uma soma de
milhares de profissionais), os quais se adequam ao perfil exigido pelo
programa de habitação na área central (classe
média). Com a implementação do tal programa e o
retorno dos funcionários públicos na área,
espera-se que diminua o fluxo de veículos individuais, valorize
o transporte coletivo, incentive o comércio central, aumente a
arrecadação de impostos na região (diminuindo a
inadimplência de I.P.T.U.’s), aproveitando uma infra-estrutura
já implementada (e a mais completa da cidade), além de
dar ao centro um uso misto que o ocupe racionalmente, tanto durante o
dia como à noite.
Como uma segunda frente de atuação na área central, visando o incentivo ao turismo, há um incremento de inúmeros centros culturais, valorizando todo e qualquer edifício como patrimônio, num gesto extremo de culturalismo, em parcerias públicas-privadas (processo antigamente conhecido como patrimonialismo: hoje, pela óptica dos gestores públicos, funciona como marketing de sua gestão; e do lado dos investidores privados, é abatido de impostos por contrapartidas compensatórias, além de lhes garantir um controle e favorecer a iniciativa de mudança do perfil cultural do centro – das classes populares, para uma arte mais erudita, elitizada ). Visa utilizar-se de edifícios, tombados pelo CONDEPHAAT (Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Turístico) ou ainda usa-se das glebas liberadas pela modernização das redes ferroviárias (em seus antigos armazéns de carga e áreas de manutenção da frota férrea).
São
exemplos, por iniciativa do governo do Estado, a
Pinacoteca do Estado, o Complexo Júlio Prestes e, em andamento,
a Estação da Luz. A Pinacoteca do Estado é projeto
do arquiteto Paulo Mendes da Rocha, que recuperou a forma e o
caráter original do antigo Liceu de Artes e Ofícios
(arquitetura neoclássica do escritório do
engenheiro-arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo, foi tombada
como patrimônio pelo CONDEPHAAT em 1982), ao mesmo tempo em que a
adaptou às novas necessidades das exposições. O
Complexo Júlio Prestes, reformulado pelo arquiteto Nelson Dupré, abriga a Sala São Paulo e a sede
da Orquestra Sinfônica do Estado. A Estação da Luz
(também tombada pelo CONDEPHAAT em 1982) se tornará
Centro de Referência da Língua Portuguesa no Brasil,
integrada a estação de conexão entre o trem
metropolitano e as linhas 1 e 4 do metrô
(reformulação também a encargo do arquiteto Paulo
Mendes da Rocha).



A cargo da
Prefeitura, tivemos a reforma do Teatro Municipal (sob
encargo da Método Engenharia, concluída em 1991, ainda na
gestão da ex-prefeita Luíza Erundina) e, atualmente em
andamento, o restauro do Mercado Municipal, do Museu da Cidade, da
Biblioteca Municipal Mário de Andrade e a
recuperação urbana e ambiental do Parque Dom Pedro,
além de requalificar as praças do centro, tais como a
praça Roosevelt, a praça da República, do
Patriarca e a da Sé. O Mercado Municipal está sendo
projeto do escritório do arquiteto Pedro Paulo de Melo Saraiva,
que incrementará o edifício com um mezanino contendo seis
restaurantes, representantes das diversas culinárias
internacionais (embora a Prefeitura negue os conflitos com os atuais
usos do mercado, vários açougues e peixarias já
fecharam suas portas). A mudança do Palácio das
Indústrias para Museu da Cidade – um centro de
exposições e artes de uso misto – é
reformulação dos arquitetos Marcelo Ferraz, André
Vainer e Marcelo Suzuki, que visa usar da parte inferior do
Palácio para o museu (o que, de acordo com Marcelo Suzuki,
é pertinente, pois em meio à uma
arquitetura eclética, surge um figurativismo simbólico:
ao invés dos leões de Veneza, temos nas entradas
carros-de-bois), enquanto que a parte acima ficará sob uso da
autarquia Anhembi-Morumbi, destinando a área para eventos
particulares (tais como casamentos, formaturas e afins). A
recuperação urbana e ambiental do Parque Dom Pedro
é projeto do arquiteto Fernando Charcel e se integra numa
região ainda maior (englobando o Museu da Cidade e até o
edifício São Vito).


Entretanto, os projetos sempre acabam se atrelando ao financiamento privado, já que o poder público não tem possibilidades de dispor sozinho tal montante. Mais uma vez, através de um crédito do BID à Prefeitura, de cem milhões de dólares, as iniciativas saem do papel, no caso, para a recuperação do Parque Dom Pedro, do Mercado Municipal e do Museu da Cidade. Deve-se ater para o fato dos projetos aprovados sempre excluírem, em seus novos espaços, camelôs, ambulantes e moradores de rua, ocupantes indesejáveis para o novo perfil que se quer dar ao centro. O interesse do mercado em investir na cultura, como parceiro do poder público, construindo “ilhas sofisticadas” de entretenimento (banhadas de sistemas de alta segurança como defesa da situação, que beira uma guerra civil), em nenhum momento pensa em espaços coletivos ou democráticos. A segurança dos executivos que freqüentam a Sala São Paulo é garantida por reforço policial, pois em frente se situa uma região problemática, conhecida como a “Cracolândia”, a qual não se insere em nenhum processo de melhorias conseqüêntes do entorno. Em outra situação, como já discutido, o edifício São Vito, que se encontra entre o Mercado Municipal e o Palácio das Indústrias, torna-se foco de atenção não por preocupações em prol de seus moradores, mas por estes se tornarem um enclave no projeto definido para a região. Quando uma área se valoriza por intervenções como as que vemos, os moradores são obrigados a pagar maiores taxas ou a procurar outros locais para viver.
A questão colocada permeia as problemáticas de considerar uma região homogênea e sem conflitos como centralidade. Assim como o vetor sudoeste, sob as circunstâncias apresentadas, a região do centro sofre com a tentativa de um projeto de alteração do perfil de seus usuários e dos usos, de maneira a tornar o espaço estéril por meio de gentrificação, isto é, excluir camelôs e moradores de rua, sem se preocupar para onde irão ou mesmo com a inserção destes em programas de assistência social. Ao propor uma revitalização do centro, acabam moldando como um museu, sem vida, uma realidade montada com demagogia e violência simbólica – a globalização excludente tida como algo positivo. Não se deve iludir: ou considera-se o centro uma área de usos mistos, sem excluir os atuais ocupantes, ou se destrói a atual situação e, no lugar, constrói-se um simulacro, uma espécie de “teatro a céu aberto”, onde uns são bem vindos e outros não – neste caso, melhor mudar o nome “centro”.
Os Centros Educacionais Unificados são unidades de
funções plurais que se complementam. Ele alia o
aprendizado escolar à formação completa do
indivíduo, sendo um espaço físico que concentra
diversas atividades, como o preparo profissional, o incentivo ao
esporte, à cultura e às artes em geral. As regiões
mais periféricas e segregadas de São Paulo são
deficientes de uma infra-estrutura urbana mínima e dos
equipamentos que permeiam os bairros centrais. Infelizmente, os
órgãos públicos não têm como sanar de
imediato todas as carências destas regiões, que formam a
maior parcela da cidade de São Paulo, em área e em
população. Elas serão incluídas,
gradualmente, nos projetos de reformulação, mas ainda
levará tempo para que o transporte
público consiga incluí-las completamente em sua
abrangência.
Desta necessidade, nasceu a idéia dos C.E.U.’s, que buscam levar, mais que o exercício e o direito à cidadania até esses locais, o reconhecimento da cidade real, através da educação, equipamentos públicos e de um espaço coletivo, do qual as comunidades possam se apropriar. A lógica de localização dos C.E.U.’s baseia-se num levantamento das áreas periféricas e na identificação dos pontos mais necessitados, que possam se estabelecer como pólos regionais, a fim de atender o maior número de pessoas possível. Isso implica dois movimentos: primeiramente, o de atrair para o interior da unidade as experiências e os movimentos que estão presentes no contexto mais próximo; em seguida, oferecer experiências significativas à comunidade, considerando como ponto de partida o reconhecimento da cultura local. Como pólo de desenvolvimento da comunidade, o C.E.U. deverá oferecer à população acesso aos programas sociais, promovendo a divulgação e a integração aos mesmos.
Existem diversas críticas a esse programa, no sentido que
criam espaços artificiais, que dão as costas à
vivência da cidade consolidada e de suas facilidades, reafirmando
um caráter de exclusão dessas populações,
ao mesmo tempo em que camufla a necessidade urgente de melhorias
urbanas. Outras críticas dizem que não se devem inserir
todos os equipamentos concentrados, mas seria melhor dissipá-los
nos bairros. Alguns ainda levantam uma questão financeira, onde
gastos com a educação (de onde foi disponibilizada a
verba, dentro do orçamento municipal) devem ser focados em
salários e contratações de professores, e
não em infra-estrutura (que abrange inclusive assuntos das
áreas de cultura e esportes).
Deve-se levar em consideração a boa
aceitação das comunidades beneficiadas e ser realista ao
reconhecer que as transformações urbanas não
irão ocorrer repentinamente, dada situação
caótica e emergencial em que a periferia se encontra. Ainda
assim, nos C.E.U.’s já inaugurados, há o estabelecimento
de um forte convívio social, dado a ausência e
distância de lugares públicos qualificados (o C.E.U.
Jambeiro tem hoje aproximadamente cinco mil usuários somente aos
finais de semana). Tal convívio seria infinitamente menor se as
intervenções não fossem concentradas, configurando
outras espacialidades que não o grande complexo, enfatizado com
as duas torres de caixas d’água de trinta metros cada, uma ao
lado da outra, as quais configuram uma espécie de pórtico
de acesso, marcando o caráter da intervenção de
valorizar a comunidade e sua auto-estima.
Sobre gastos, isto parte de uma política educacional que
valoriza o aluno ao invés do professor.

Cada
unidade do C.E.U. conta com:
Dentro dos C.E.U.’s, comércio não é permitido.
© Revista Eletrônica de Ciências - Número 23 - Janeiro de 2004.