Revista Eletrônica de Ciências
São Carlos,  .
Número 18, Abril de 2003 Artigo

A degradação do lixo urbano

Alberto Cury Nassour
Engenheiro de materiais

Pontas de cigarro, chicletes, cascas de frutas, latas de refrigerantes ou garrafas de plástico. Diante de tudo o que se descarta sem maior preocupação, em qualquer lugar e todos os dias, é surpreendente que o nosso planeta Terra não fique coberto por uma malcheirosa camada de dejetos. Isso só não acontece graças ao processo natural de biodegradação. Por meio dele, bactérias, leveduras, fungos e outros micróbios se alimentam da matéria orgânica do lixo, transformando-o em compostos mais simples que são devolvidos ao meio ambiente, inclusive alguns na forma de nutrientes.

A matéria orgânica é formada de extensas cadeias de carbono à qual se penduram outros átomos. Os microorganismos quebram a cadeia junto ao carbono e aproveitam a energia encerrada na ligação química. Os micróbios tendem a quebrar o maior número de ligações e arrancar do composto original a maior quantidade possível de energia. Por isso, é que no final restam materiais extremamente simples.

Mas isso depende do tipo de material e do tipo de degradação existente. Quando ela é aeróbica, a qual utiliza oxigênio, o processo é muito eficiente. Seus subprodutos são elementos como nitrogênio e o enxofre, anteriormente pendurados nas cadeias de carbono. Na decomposição anaeróbica, sem oxigênio e portanto menos eficiente, os subprodutos são mais complexos como o gás metano e gás sulfídrico. Daí o mau cheiro observado ao redor do lixo caseiro. Esse trabalho minucioso pode durar alguns dias ou milhares de anos. Depende do tipo de material do qual é constituído o lixo.

Além disso, o processo de degradação depende de mais alguns fatores como o calor e a umidade do solo, que estimulam o crescimento e a atividade de microorganismos aeróbicos. Assim, quanto mais úmido e quente for o local, mais rápida será a degradação. Por outro lado, as águas e terrenos ácidos limitam a capacidade de desenvolvimento desses microorganismos. Os ácidos, metais pesados e substâncias tóxicas prejudicam o trabalho das bactérias, podendo até exterminá-las.

Outro problema com o qual se defronta é a gastronomia dos microorganismos. Certas colônias de bactérias de um determinado terreno não são capazes de decompor resíduos facilmente devorados por outros tipos de colônias. Por exemplo, se o terreno não dispuser de uma quantidade razoável de oxigênio, diversos produtos, como o azeite e alguns pesticidas, não sofrerão decomposição. É difícil determinar as preferências e localizações das inúmeras espécies de bactérias. As mais conhecidas são as do grupo metanogênico, pois produzem gás metano.

O tempo da decomposição dependerá do tipo de lixo existente no local. Quando se joga uma folha de papel de propaganda na rua, demorará cerca de três meses para haver a sua completa degradação, pois a lignina, que é a substância que dá rigidez ás células vegetais, não se decompõe facilmente, pois suas células são maiores que as bactérias que as destroem. Os pequenos palitos de fósforo, necessitam de fungos xilófagos para a sua decomposição. Esse processo pode demorar até seis meses.

Quando se joga um miolo de uma saborosa maçã ao solo, pode demorar até um ano para se decompor e virar matéria orgânica ou nutriente para o solo. Uma simples ponta de cigarro, pode demorar de um a dois anos para se decompor totalmente, pois é o tempo que as bactérias e fungos, que digerem o acetato de celulose existente no filtro do cigarro, levam para destruí-lo. Ao passo que um chiclete de bola muito apreciado por jovens, além de ser cariogênico, quando jogado no asfalto começa a ser destruído pela luz e pelo oxigênio do ar, que o fazem perder o odor e a cor rapidamente. Porém, como a goma de mascar contém uma mistura de resinas naturais e artificiais, além de açúcares, corantes e outros ingredientes, o processo pode durar até cinco anos ou mais. A destruição do chiclete é bem mais rápida se grudar no sapato de algum transeunte distraído.

Para quem gosta de jogar latinhas de refrigerante ou de cerveja nas ruas, pode ter que aguentá-las um bom tempo, pois os metais com as quais são fabricadas, ou sejam folhas de alumínio, não são facilmente biodegradáveis. Uma lata de produtos em conserva por exemplo, constituída por uma fina folha de aço recoberto com estanho se desintegra em uns dez anos, convertendo-se em óxido de ferro. Já as latinhas de alumínio não corroem devido à capacidade de formar uma camada de óxido de alumínio estável. Ainda bem que existem tantos catadores de latinhas de alumínio. Além de ajudarem a manter a cidade mais limpa, ainda recebem uns bons trocados nos locais de reciclagem de material.

Já os vasilhames de plásticos possuem as mais diferentes composições e formas de degradação, pois foram fabricadas para apresentarem boa qualidade, durabilidade, resistência aos choques, quedas e principalmente à umidade e aos produtos químicos. Alguns otimistas acreditam que as garrafas de plástico demorem cerca de 300 anos ou mais para se decomporem naturalmente. As garrafas ou vasilhames de vidro não sofrem processo de deterioração natural num período inferior a 5000 anos. Arqueólogos encontraram utensílios de vidro intactos e datados de 2000a.C. Por serem fabricados com a própria sílica da areia, sódio, cal e vários aditivos, os microorganismos não conseguem deteriorá-los. im, o corpo e a mente são trabalhados e desenvolvidos juntos, num processo de união.

Em média cerca de 50% do lixo urbano é constituído por papel, papelão e seus derivados; cerca de 20% é constituído de matéria orgânica e resíduos, como restos de comida, cascas e frutas. Os vasilhames de vidro representam cerca de 13% enquanto que os metais somam 10% e os derivados de plástico ficam com 7% do total.

Em vista disso, é melhor procurar latas de lixo seletivo antes de jogar algo fora. Mesmo assim, resultados de um estudo, realizado há alguns anos pelo Ministério da Saúde, revelam que o Brasil produz uma montanha de mais de 80 mil toneladas de lixo por dia, das quais somente a metade é coletada. Da parte que é coletada, cerca de 34% vai para os lixões a céu aberto ou aterros sanitários e 66% termina em beiras de rios e áreas alagáveis em épocas de chuvas fortes. Não se admira que 65% das internações em hospitais populares decorrem de doenças transmissíveis pela manipulação ou ingestão de águas pluviais e fluviais. Em São Paulo, por exemplo, somente cerca de 0,8% das 12 mil toneladas de lixo diário são recicladas.

© Revista Eletrônica de Ciências - Número 18 - Abril de 2003.