| Revista Eletrônica de Ciências | ||
| São Carlos,
.
|
Número 17, Março de 2003 | Artigo |
Haveria vida na Terra se não houvesse
oxigênio? Provavelmente, sim, pois existem muitos microrganismos
que não precisam desse gás para sobreviver. Mas
certamente
nenhuma forma mais evoluída existiria, como vegetais ou animais.
Aliás, os vegetais também precisam de oxigênio.
Lembre-se de que as plantas respiram oxigênio, não apenas
absorvem luz e gás carbônico durante a
fotossíntese. Os animais necessitam de grandes quantidades de
oxigênio para aproveitar a energia contida nos alimentos que
consome. Quando os animais não conseguem levar oxigênio
rapidamente aos músculos, por exemplo, num esforço
intenso e repentino, a queima dos alimentos não produz nem 10%
da energia que poderia produzir caso houvesse oxigênio
suficiente. Além disso, o oxigênio é fundamental
para o crescimento do corpo e o funcionamento do cérebro. O elemento oxigênio, cujos átomos se
combinam dois a dois para formar o gás oxigênio,
também se combina em trio, gerando o ozônio, um gás
que se forma nas camadas mais altas da atmosfera, e que impede que a
danosa radiação ultravioleta chegue à
superfície. O elemento oxigênio também está
presente na água. E a água, ao contrário do
gás oxigênio, é fundamental para todos os
organismos vivos da Terra.
O fogo também depende do oxigênio
para existir. Quando as substâncias se queimam, elas
estão, na verdade, se combinando com o oxigênio da
atmosfera. Na Antigüidade, o fogo era considerado um dos quatro
"elementos fundamentais", juntamente com a água, a terra e o ar.
Observando que as chamas sempre parecem estar saindo de um objeto em
combustão, os antigos acreditavam que o fogo provocava a
saída de alguma substância desse objeto, substância
essa que seria fundamental para a queima de qualquer coisa. Em 1702, o médico alemão Georg
Stahl, utilizando os mesmos conceitos que os antigos, deu nome a essa
substância: flogístico. Essa teoria, que hoje se
revela absurda, explicava por que materiais como a madeira pesavam
menos depois de queimados. No entanto, não explicava por que
alguns metais tinham comportamento inverso, ou seja, suas massas
aumentavam quando eram aquecidos por muito tempo. O químico inglês Joseph Priestley,
mais de 60 anos depois, começou a fazer experimentos com gases.
Foi ele quem inventou a água tônica, ao misturar o
gás resultante da fermentação da cerveja (hoje
conhecido como gás carbônico, CO2)
na água. Priestley acabou descobrindo muitos outros gases, como
o cloreto de hidrogênio, HCl (que, dissolvido na água,
resulta no ácido clorídrico) e o óxido nitroso, N2O, anestésico, conhecido como gás do
riso.
Priestley também foi um dos descobridores do gás oxigênio. Ele percebeu que, durante o aquecimento do óxido mercúrico, Hg2O2, em um recipiente fechado, havia a liberação de um gás que tornava uma chama de vela muito mais brilhante. Além disso, ratos sobreviviam por muito mais tempo num ambiente totalmente fechado quando todo o ar do ambiente era substituído por esse gás. O próprio Priestley respirou esse gás e escreveu que, até aquele momento, apenas ele e seus ratos haviam feito isso, mostrando desconhecer que o gás era o oxigênio, que ele respirou por toda a sua vida. A reação ocorrida, na linguagem química utilizada atualmente, é a seguinte:
Esse desconhecimento de Priestley o levou a interpretar os resultados obtidos de acordo com a teoria do flogístico. Segundo ele, o aquecimento do óxido mercúrico retirava flogístico do ar. Por isso, a queima da vela e a respiração dos ratos ocorria mais facilmente, já que havia mais espaço para o flogístico liberado pela combustão e pela respiração. Complicado, não?
O problema de
Priestley foi que ele tentou
explicar o novo fenômeno usando uma teoria antiga, e não
tentou elaborar uma nova. Antoine Lavoisier, químico
francês que viveu à mesma época de Priestley,
elaborou uma nova teoria. A simplicidade de sua idéia fez
desaparecer a teoria do flogístico, principalmente depois que
novas observações científicas foram sendo feitas.
Priestley foi a Paris logo depois dessa experiência com o óxido de mercúrio, e assim contou a Lavoisier detalhes da pesquisa. O químico francês já fazia pesquisas com o aquecimento de diversas substâncias. Ele sabia que o óxido mercúrico perdia massa quando aquecido, mas que substâncias como o fósforo ganhavam massa no aquecimento.
Lavoisier estava certo ao acreditar que
isso
acontecia porque algumas substâncias reagiam com o ar,
consumindo-o, enquanto outras liberavam gases. Ele conseguiu demonstrar
que a reação inversa à feita por Priestley, ou
seja, a produção de óxido mercúrico a
partir de mercúrio metálico, só acontecia na
presença de ar, e que este ar perdia sua capacidade de queimar
velas após a reação. O cientista francês deu
a esse componente do ar o nome de oxigênio (do grego
"produzir um ácido"). Isto porque Lavoisier erradamente
acreditava que o oxigênio estava presente em todos os
ácidos. Lavoisier também percebeu que
não
havia variação na massa total do sistema
substância-ar. Ou seja, quando a substância perdia massa, o
ar ganhava exatamente a mesma massa. Isto o levou a formular a Lei de
Conservação de Massas, que afirma que "em toda
transformação, uma quantidade igual de matéria
existe antes e depois dessa transformação". Ou, na frase
que se popularizou: "Na natureza nada se cria, nada se perde: tudo se
transforma". © Revista
Eletrônica de Ciências - Número 17 - Março de
2003.
Reação do fósforo branco com
o oxigênio do ar.
Na queima, o fósforo ganha seis átomos de oxigênio
e fica mais pesado.