Revista Eletrônica de Ciências
São Carlos,  .
Número 12, Outubro de 2002 Artigo

Se bem não fizer, mal também não fará

Alessandra Cristina Soares
Química formada pelo IQSC-USP - Instituto de Química de São Carlos da Universidade de São Paulo

No momento em que o primeiro ser humano surgiu no planeta, as plantas já existiam há mais de 400 milhões de anos. A utilização das plantas como medicamento provavelmente é tão antiga quanto o aparecimento do próprio homem, o que só aconteceu cerca de 50 mil anos atrás. Há registros antigos, como desenhos em cavernas, escritos e símbolos, que revelam uma ligação muito íntima do homem com a natureza, principalmente com as plantas. A evolução da arte de curar possui numerosas etapas, porém torna-se difícil delimitá-la com exatidão, já que a medicina esteve por muito tempo associada a práticas mágicas, místicas e ritualísticas.

A preocupação com a cura de doenças, ao longo da história da humanidade, sempre se fez presente. Sabemos que os alquimistas, na tentativa de descobrir o "elixir da longa vida", contribuíram muito na evolução da arte de curar.

Com o passar do tempo, o estudo da botânica evoluiu, pois o homem foi desenvolvendo um senso aguçado e, aos poucos, classificando e catalogando as espécies em função de seu uso para os mais diversos fins.

As espécies tidas hoje como medicinais ou tóxicas começaram a ser classificadas pelo seu uso prático. Muitas vezes, uma planta medicinal era descoberta simplesmente por apresentar uma morfologia semelhante a alguma parte do corpo humano e, assim, associada a este órgão no processo de cura.

As civilizações em todo o mundo foram juntando suas experiências de forma única, deixando acumular até nossos dias um vasto e inestimável conhecimento sobre as ervas, em grande parte comprovado pela ciência moderna.

O Brasil tem uma das mais ricas biodiversidades do planeta, com milhares de espécies em sua fauna e flora. Possivelmente aqui a utilização das plantas – não só como alimento, mas também como fonte terapêutica – começou desde que os primeiros habitantes chegaram ao Brasil, há cerca de 12 mil anos, dando origem aos paleoíndios (índios da era paleozóica) amazônicos, dos quais derivaram as principais tribos indígenas do país. As primeiras informações sobre os hábitos dos indígenas só vieram à luz com o início da colonização portuguesa. Um pouco mais tarde, o padre José de Anchieta detalhou as plantas comestíveis e medicinais do Brasil como o feijão, o milho, a cevada, o grão-de-bico, a lentilha, o cará, o palmito e a mandioca (que era o principal alimento dos índios). Das plantas medicinais, especificamente, Anchieta falou muito em uma "erva boa", a hortelã pimenta, que era utilizada pelos índios contra indigestões, para aliviar nevralgias, reumatismo e doenças nervosas.

Atualmente, os estudos de plantas medicinais no Brasil chamam a atenção de equipes multidisciplinares formadas por botânicos, biólogos, bioquímicos, farmacêuticos, médicos, laboratórios fitoquímicos e farmacológicos, centros de pesquisa e órgãos governamentais. Esse interesse é fruto do incentivo dado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) após reunião em 23 de maio de 1978 quando reconheceu a importância das plantas medicinais e das preparações galênicas na cura de doenças, recomendando a difusão, em nível mundial, dos conhecimentos necessários para o uso das plantas medicinais.

oda a história da medicina está intimamente ligada às plantas pois, somente em 1928, Friedrich Wohler sintetizou a uréia (substância orgânica) a partir de cianato de amônio (substância inorgânica), o que foi uma revolução no conhecimento da época, cuja concepção era de que uma substância orgânica só poderia ser sintetizada a partir de animais ou vegetais. Após este fato, a farmacologia moderna avançou para a situação atual de elaboração de medicamentos sintéticos, que dominou o mercado de fármacos por muitos anos. Apesar disso, a indústria fitoterápica movimenta hoje cerca de US$ 14 bilhões em todo o mundo, ou seja, 5% dos US$ 280 bilhões que circulam no mercado global de medicamentos sintéticos. No Brasil, o mercado de medicamentos em geral movimenta anualmente US$ 7 bilhões, sendo que os medicamentos fitoterápicos representam cerca de 4% deste total, ou seja, US$ 300 milhões.

Porém, de modo geral a população ainda recorre aos conhecimentos populares na hora de utilizar plantas medicinais (na maioria, plantas oriundas de fontes desconhecidas), por acreditarem que "se bem não fizer, mal também não fará". Acreditar que as plantas medicinais são totalmente benéficas somente por serem plantas, pode ser muito perigoso. As substâncias produzidas pelas plantas são idênticas àquelas sintetizadas em laboratório pelo homem; apenas podem ser menos tóxicas devido às baixas concentrações encontradas nos vegetais ou pela interação direta ou indireta com outras substâncias existentes na planta. Esse conceito conferido aos chás e infusões deve ser revisto pois, se houver ingestão em excesso, ou se alguns componentes forem nocivos ao homem, os efeitos indesejados serão idênticos ou ainda piores que dos remédios sintéticos que seriam utilizados para a doença em questão.

É claro que, nesta situação, o fato de tomar uma chá para curar algum mal repentino não constitui uma negação do conhecimento científico e da necessidade de orientação médica mas, representa uma busca àquele homem dos primórdios da humanidade, época em que "tudo era mais natural e não havia tantas doenças". A situação complica-se mais ainda ao considerar que, apesar de todo o aporte tecnológico para disponibilizar informações a respeito das plantas medicinais, o acesso a todo esse conhecimento ainda é bastante desigual.

Esse fato fica evidente quando se observa que mais de 50% da população brasileira faz uso de plantas medicinais, mas a boa notícia é que existem vários programas do Sistema Nacional de Saúde que visam maior utilização desta terapêutica, seja contratando médicos fitoterapeutas ou criando pequenas plantações para uso de pacientes de certos hospitais.

Um exemplo é o Projeto Farmácias Vivas da Universidade Federal do Ceará (UFC). Criado em 1984, ele tem as características de um programa de medicina social e foi organizado de acordo com as recomendações da Organização Mundial de Saúde. Teve como ponto de partida o Horto Matriz de Plantas Medicinais da UFC, órgão agregado ao Laboratório de Produtos Naturais. Alguns exemplos de seus objetivos são: oferecer assistência farmacêutica fitoterápica de base científica às comunidades públicas e privadas interessadas no emprego terapêutico de plantas da região sem fins lucrativos, estudar cientificamente as plantas medicinais, desde a fase de cultivo das espécies até a produção e distribuição de medicamentos fabricados a partir das plantas estudadas. O Projeto Farmácias Vivas já selecionou no Ceará 52 espécies que podem ter uso medicinal. Mais de cem espécies continuam sendo estudadas.

Enquanto não surgem mais projetos como esse, para levar uma vida saudável, como nos primórdios da humanidade, é preciso utilizar plantas medicinais com o maior critério possível.



© Revista Eletrônica de Ciências - Número 12 - Outubro de 2002.