Revista Eletrônica de Ciências
São Carlos,  .
Número 10, Agosto de 2002 Artigo

Viajantes do espaço

Regina Helena Porto Francisco
Professora Dra. do IQSC-USP - Instituto de Química de São Carlos da Universidade de São Paulo
e-mail: porto@iqsc.usp.br

As viagens de seres humanos ao espaço estão ficando cada vez mais freqüentes e, diante dos custos absurdamente altos destes programas, as pessoas se perguntam se os astronautas poderiam ser substituídos por robôs. A resposta é não. Nem sempre os homens podem ser substituídos por máquinas. Homens tomam decisões que não poderiam ter sido previamente programadas numa máquina.

Um exemplo foi o conserto do telescópio espacial Hubble, uma máquina que custou milhões de dólares e apresentou defeito logo após seu lançamento. Ele foi reparado por astronautas em sucessivas missões, e em abril de 2000 completou 10 anos de trabalho valiosíssimo para a humanidade, fornecendo informações sobre o Universo. O conserto do Hubble não poderia ser feito por máquinas controladas da Terra por controle remoto.

Há outros exemplos, como a missão Apollo, que levou homens à Lua. Lá eles repararam o veículo usado para deslocamento, testaram o mecanismo de comunicação com a Terra e selecionaram adequadamente as amostras a ser trazidas.

A exploração na superfície do planeta Marte foi feita por um robô extremamente simpático que parecia um tanque de guerra em miniatura, e que iniciou um dia seu trabalho ao som de uma música brasileira. Entretanto, a seleção das amostras do solo não foi a melhor possível. Uma sonda a bordo da nave detectou a presença de material de composição inusitada e muito interessante que não foi coletado porque estava fora do que havia sido previamente programado para o robô. Aliás, este só podia se afastar 100 metros da nave, o que pode ser muito pouco.

O objetivo principal das viagens espaciais é a exploração planetária e a procura por vida fora da Terra. E isto requer máquinas e homens. Entretanto, os riscos para os seres humanos são altíssimos e há muitas barreiras a ser vencidas. Os principais problemas são:

A ausência de gravidade causa problemas de perda da força muscular, similares ao efeito de imobilização da pessoa na superfície da Terra. Também causa perda da massa óssea, aumentando o risco de fratura. A perda óssea sofrida por uma mulher no período pós-menopausa é de 2 a 3% em 10 anos. Os astronautas que ficaram de 4 a 15 meses a bordo da Mir, a antiga estação espacial russa, apresentaram perdas que variavam de 0 a 20%. Em média as perdas foram de 6% na região lombar da coluna vertical, de 11% na região pélvica e de 8% no fêmur.

A ausência de gravidade no espaço também levam a: alterações cardíacas; diminuição da massa muscular do coração e perda parcial de suas funções; alterações no ritmo circadiano (que nos faz ter sono à noite, acordar pela manhã e ter fome nos horários habituais); danos na coordenação neuromuscular e no equilíbrio; infecções devidas a problemas relacionados ao sistema imunológico.

O isolamento durante meses num ambiente sem privacidade, restrito a um grupo de companheiros, bem como a ausência da família e dos amigos, pode causar uma série de distúrbios psicossociais que já são estudados em outras situações, como as equipes que permanecem em bases na Antártica e as pesquisas sobre características de personalidade e de liderança.

Ainda há o risco de exposição a radiações de tipos e intensidades diferentes das que atuam na superfície da Terra. Neste aspecto um dos principais problemas é o surgimento tardio de câncer em conseqüência de alterações celulares induzidas por radiação. Muito trabalho tem sido feito para resolver estes problemas.

As experiências feitas nos últimos 40 anos indicam que não se pode analisar os vários efeitos em separado. O ser humano constitui um todo e é afetado simultaneamente nos vários aspectos.


Crédito: Nasa

Nos Estados Unidos, o Instituto Nacional de Pesquisas em Biomedicina Espacial e a Nasa estão desenvolvendo um programa de longa duração para o desenvolvimento de uma descrição quantitativa da saúde humana, contendo informações atualizadas sobre cada componente do corpo e como estes componentes se relacionam entre si. O objetivo é a compreensão profunda e completa das funções biológicas humanas e das características genéticas as determinam.

Para o programa aeroespacial, o objetivo é a obtenção de um modelo humano personalizado para cada membro da tripulação de um vôo espacial. Modelos individuais da anatomia, fisiologia, estado funcional e históricos médico e ambiental de cada astronauta contribuirão para o monitoramento, diagnóstico, tratamento e prevenção da saúde destas pessoas.

O caminho já percorrido e o que ainda está à frente indica claramente que o século 21 será conhecido pelas gerações futuras como o "século das viagens espaciais", que abriu novos caminhos para a sobrevivência da espécie humana.


© Revista Eletrônica de Ciências - Número 10 - Agosto de 2002.