| Revista Eletrônica de Ciências | ||
| São Carlos,
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Número 10, Agosto de 2002 | Artigo |
As viagens de seres humanos ao espaço
estão ficando cada vez mais freqüentes e, diante dos custos
absurdamente altos destes programas, as pessoas se perguntam se os
astronautas poderiam ser substituídos por robôs. A
resposta é não. Nem sempre os homens podem ser
substituídos por máquinas. Homens tomam decisões
que não poderiam ter sido previamente programadas numa
máquina. Um exemplo foi o conserto do telescópio
espacial Hubble, uma máquina que custou milhões de
dólares e apresentou defeito logo após seu
lançamento. Ele foi reparado por astronautas em sucessivas
missões, e em abril de 2000 completou 10 anos de trabalho
valiosíssimo para a humanidade, fornecendo
informações sobre o Universo. O conserto do Hubble
não poderia ser feito por máquinas controladas da Terra
por controle remoto. Há outros exemplos, como a missão
Apollo, que levou homens à Lua. Lá eles repararam o
veículo usado para deslocamento, testaram o mecanismo de
comunicação com a Terra e selecionaram adequadamente as
amostras a ser trazidas. A exploração na superfície do
planeta Marte foi feita por um robô extremamente simpático
que parecia um tanque de guerra em miniatura, e que iniciou um dia seu
trabalho ao som de uma música brasileira. Entretanto, a
seleção das amostras do solo não foi a melhor
possível. Uma sonda a bordo da nave detectou a presença
de material de composição inusitada e muito interessante
que não foi coletado porque estava fora do que havia sido
previamente programado para o robô. Aliás, este só
podia se afastar 100 metros da nave, o que pode ser muito pouco.
O objetivo principal das viagens espaciais
é a exploração planetária e a procura por
vida fora da Terra. E isto requer máquinas e homens. Entretanto,
os riscos para os seres humanos são altíssimos e
há muitas barreiras a ser vencidas. Os principais problemas
são: as mudanças nas forças
físicas dentro e sobre o corpo devido à
diminuição da gravidade; mudanças psicossociais causadas por
confinamentos longos; mudanças nos níveis e tipos de
radiação a que fica exposto o astronauta. A ausência de gravidade causa problemas de
perda da força muscular, similares ao efeito de
imobilização da pessoa na superfície da Terra.
Também causa perda da massa óssea, aumentando o risco de
fratura. A perda óssea sofrida por uma mulher no período
pós-menopausa é de 2 a 3% em 10 anos. Os astronautas que
ficaram de 4 a 15 meses a bordo da Mir, a antiga estação
espacial russa, apresentaram perdas que variavam de 0 a 20%. Em
média as perdas foram de 6% na região lombar da coluna
vertical, de 11% na região pélvica e de 8% no
fêmur. A ausência de gravidade no espaço
também levam a: alterações cardíacas;
diminuição da massa muscular do coração e
perda parcial de suas funções; alterações
no ritmo circadiano (que nos faz ter sono à noite, acordar pela
manhã e ter fome nos horários habituais); danos na
coordenação neuromuscular e no equilíbrio;
infecções devidas a problemas relacionados ao sistema
imunológico.
O isolamento durante meses num ambiente sem
privacidade, restrito a um grupo de companheiros, bem como a
ausência da família e dos amigos, pode causar uma
série de distúrbios psicossociais que já
são estudados em outras situações, como as equipes
que permanecem em bases na Antártica e as pesquisas sobre
características de personalidade e de liderança. Ainda há o risco de exposição
a radiações de tipos e intensidades diferentes das que
atuam na superfície da Terra. Neste aspecto um dos principais
problemas é o surgimento tardio de câncer em
conseqüência de alterações celulares induzidas
por radiação. Muito trabalho tem sido feito para resolver
estes problemas.
As experiências feitas nos últimos 40 anos indicam que não se pode analisar os vários efeitos em separado. O ser humano constitui um todo e é afetado simultaneamente nos vários aspectos.
Nos Estados Unidos, o Instituto Nacional de
Pesquisas em Biomedicina Espacial e a Nasa estão desenvolvendo
um
programa de longa duração para o desenvolvimento de uma
descrição quantitativa da saúde humana, contendo
informações atualizadas sobre cada componente do corpo e
como estes componentes se relacionam entre si. O objetivo é a
compreensão profunda e completa das funções
biológicas humanas e das características genéticas
as determinam. Para o programa aeroespacial, o objetivo é
a obtenção de um modelo humano personalizado para cada
membro da tripulação de um vôo espacial. Modelos
individuais da anatomia, fisiologia, estado funcional e
históricos médico e ambiental de cada astronauta
contribuirão para o monitoramento, diagnóstico,
tratamento
e prevenção da saúde destas pessoas. O caminho já percorrido e o que ainda
está à frente indica claramente que o século 21
será conhecido pelas gerações futuras como o
"século das viagens espaciais", que abriu novos caminhos para a
sobrevivência da espécie humana. © Revista
Eletrônica de Ciências - Número 10 - Agosto de 2002.
Crédito: Nasa