| Revista Eletrônica de Ciências | ||
| São Carlos,
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Número 05, Março de 2002 | Artigo |
Daniel Perdigão Nass
Estudante do curso de química do IQSC-USP - Instituto de
Química de São Carlos da Universidade de São Paulo
Regina Helena
Porto Francisco
Professora Dra. do IQSC-USP - Instituto de
Química de São Carlos da Universidade de São Paulo
e-mail:
porto@iqsc.usp.br
Durante uma reunião do Programa das
Nações Unidas para o Ambiente, Unep, ocorrida em maio
de 2001 na capital sueca, Estocolmo, representantes de 90
países,
incluindo o Brasil, assinaram a Convenção sobre Poluentes
Orgânicos Persistentes, que visa a proibir a
produção e o uso de 12 substâncias orgânicas
tóxicas, atendendo a um apelo
do diretor da Unep e da comunidade
internacional. Os doze Poluentes Orgânicos Persistentes
(POPs), conhecidos também como a "dúzia suja" (dirty
dozen, em inglês) são Aldrin, clordano, Mirex,
Dieldrin, DDT, dioxinas, furanos, PCBs, Endrin, heptacloro, BHC e
toxafeno. Eles são acusados de causar doenças graves, em
especial o câncer, e má-formação de humanos
e animais de todo o mundo, muitas vezes sendo encontrados em locais
distantes de qualquer fonte emissora, tornando-se, portanto, um
problema global. Durante e após a Segunda Guerra Mundial,
nas décadas de 1940 e 50, ocorreu uma enorme
proliferação destas substâncias. Naquela
época era necessário aumentar a produção de
alimentos no mundo, para fazer frente ao crescimento populacional. Esta
necessidade, aliada ao rápido desenvolvimento científico
e tecnológico, promoveu a produção de uma
quantidade enorme de poluentes.
A
maioria dos 12 compostos da lista já foi
banida ou teve seu uso reduzido em boa parte do mundo, reduzindo o
impacto econômico da ratificação da
convenção e facilitando sua entrada em vigor. O Brasil,
por exemplo, não produz diretamente nenhum dos doze compostos,
mas importa três deles para uso industrial. Entretanto, as
dioxinas e os furanos, por serem produzidos de forma não
intencional, demorarão mais a ser eliminados.
BHC
Em
1825, Michael
Faraday verificou que o benzeno (C6H6) reage com cloro quando
exposto à luz ultravioleta. A luz quebra as moléculas do
gás cloro (Cl2), deixando os
átomos
livres para romper as ligações duplas entre os
átomos de carbono do benzeno, adicionando-se a ele. O produto
obtido, o hexaclorocicloexano, é comercializado com o nome de
BHC, e consiste na mistura de várias substâncias
isômeras, isto é, constituídas pelos mesmos tipos e
quantidades de átomos, mas que estão organizados de forma
diferente.
Uma destas substâncias, o lindano, é separado e utilizado como princípio ativo de inúmeros produtos utilizados em crianças para combater piolhos e pulgas. Seu uso prolongado causa danos no fígado e, por isso, recomenda-se que sejam aplicados por pouco tempo, o que parece difícil para crianças que freqüentam locais infestados por tais pragas.
Devido à alta toxicidade, o uso do BHC tem sido bastante combatido desde os anos 1970. O envenenamento de seres humanos pode ser causado por inalação, ingestão ou absorção pela pele. A substância tóxica causa desde sonolência até convulsões e colapsos circulatórios, além do câncer.
DDT e inseticidas organoclorados
O composto 1,1-bis(4-clorofenil)-2,2,2-tricloroetano, mais conhecido pela sigla DDT, foi preparado pela primeira vez em 1874, através da reação de condensação de clorobenzeno com um aldeído, o cloral, ou tricloroetanal.
Entretanto, suas propriedades inseticidas só foram descobertas 65 anos depois, em plena Segunda Guerra Mundial, tendo um importante papel na vitória dos Aliados, que o utilizaram largamente em áreas quentes, no combate a doenças transmitidas por mosquitos, antes de batalhas. Tal descoberta rendeu a Paul Müller o Prêmio Nobel de Medicina de 1948, pelas milhões de vidas salvas pelo DDT.
Apenas na década seguinte começou-se a perceber que o DDT persiste no ambiente mesmo depois de vários anos da aplicação, e que ele se acumula no organismo de animais superiores. Isto ocorre porque o DDT é pouco solúvel em água, mas solúvel em gorduras. Os animais têm uma ótima via de eliminação de toxinas solúveis em água, que é a urina, mas não possuem mecanismo eficaz de eliminação de substâncias pouco solúveis na água. Tal efeito é intensificado em animais ditos superiores, que se alimentam das gorduras de outros animais.
A exposição contínua a doses baixas de DDT pode trazer danos maiores do que uma intoxicação pontual aguda. Isto ocorre com profissionais que produzem ou aplicam os pesticidas, e, nesta situação, é um agente cancerígeno.
Além do DDT, outras substâncias com propriedades inseticidas foram fartamente utilizadas na agricultura, com efeitos toxicológicos semelhantes, como Aldrin, Dieldrin, Endrin, heptacloro, clordano, toxafeno e Mirex.
Dioxinas
As dioxinas constituem uma classe de substâncias orgânicas muito estáveis. Elas são subprodutos de alguns tipos de indústrias químicas, de incinerações de lixo, da combustão de madeira, de decomposições de produtos de origem vegetal e de transformações de herbicidas por processos enzimáticos. O controle de todos esses processos é bastante complicado, muitas vezes independendo do homem, o que dificulta a eliminação de tais compostos, como deseja a ONU.
Estudos feitos no Canadá revelam que, apenas naquele país, são lançadas no ar 58,7kg de dioxina por ano, devido a queimadas de florestas. Tal quantidade parece pequena, mas é preocupante comparada à toxicidade da dioxina. Um único miligrama de dioxina no organismo de macacos de 15kg mata metade da população do animal.
PCBs e furanos
Os PCBs (bifenilas policloradas, ou polychlorinated biphenyls, em inglês) são uma classe de compostos orgânicos clorados de alta toxicidade, largamente utilizados na indústria moderna. A reação de benzeno a 750ºC, catalisada por chumbo metálico, gera bifenil. Com outro catalisador, o bifenil reage com gás cloro, gerando os PCBs.
Os produtos clorados são líquidos que evaporam pouco, quimicamente inertes, excelentes isolantes térmicos, e pouco combustíveis. Com tantas características industrialmente interessantes, este é um dos compostos de mais difícil eliminação.
Sua capacidade de acumulação em animais superiores impressiona. Há registros de multiplicação da concentração por 50 mil. Além de sua toxicidade, sua reação com o oxigênio do ar produz furanos, moléculas estruturalmente semelhantes às dioxinas e tão tóxicas quanto elas.
Para que a Convenção sobre POPs seja implementada, é necessária a aprovação de leis que a ratifiquem em pelo menos 50 países. O Canadá aprovou a sua apenas duas horas após assinar o acordo. Entretanto, este é um caso isolado, pois o processo depende da decisão de cada país, e pode levar anos. Até quando podemos esperar?
© Revista Eletrônica de
Ciências - Número 5 -
Março de 2002.