Chuva de meteoros
Ao olharmos cuidadosamente o céu
limpo noturno, podemos observar uma série de fenômenos interessantes.
Um deles é o popularmente chamado de estrela cadente, que não
é propriamente uma estrela, mas um fragmento muito pequeno originário
de cometas e asteróides. Estes objetos vagam pelo espaço
e, por vezes, encontram a Terra. Ao cruzarem velozmente a atmosfera terrestre,
esquentam rapidamente devido à resistência do ar, ficando
incandescentes e formando os rastros brilhantes que chamamos de estrelas
cadentes ou meteoros.
Devido às altas temperaturas, boa parte deles vaporiza-se por completo,
e não chega à superfície da Terra. Quando observamos
este fenômeno em abundância, dizemos que estamos vendo uma
chuva
de meteoros e, neste caso, sua origem se deve geralmente à passagem
de algum cometa. Se, no entanto, algum pedaço do meteoro não
vaporiza e cai no solo, é então chamado
meteorito.
Os meteoritos de tamanho apreciável podem abrir grandes crateras,
como a do Arizona,
nos Estados Unidos.
Mas como os cometas participam deste
fenômeno? Para entendermos isso, vamos voltar um pouco no tempo.
A chuva de meteoros é objeto recente de estudo dos astrônomos,
que passaram a acompanhá-la metodicamente somente a partir do século
19. Entretanto, há anotações históricas que
descrevem o seu aparecimento em épocas e lugares tão remotos
como, por exemplo, a China. A mais antiga descrição conhecida
pode ser encontrada nos Anais da primavera e do outono, do chinês
Ch'un Ch'iu, que registrou a chuva de 23 de fevereiro de 687 a.C!
No começo, sua origem era, ao
mesmo tempo, fonte de exaltação e perplexidade. As civilizações
pré-científicas consideraram os meteoros, à semelhança
dos cometas, mensageiros de algum sinal, geralmente de má sorte.
Na África Ocidental, certas culturas consideravam os meteoritos
excrementos solares. Em outras, os meteoritos representavam as almas dos
mortos regressando à Terra para renascerem, ou ainda, os Arautos
de Mbomvei, o ser supremo. Para os Jukun, o meteoro representou uma oferta
de alimentos vinda das estrelas. Na África Islâmica, crê-se
que a estrela cadente seja um punhal enviado pelos anjos para impedir que
os espíritos subam ao céu.
Já a maioria dos astrônomos
pensava que os meteoros estavam associados a simples fenômenos meteorológicos,
como relâmpagos, nuvens, arco-íris ou pequenos pedaços
de rochas que retornavam à Terra após terem sido expelidos
durante uma erupção vulcânica. Na antigüidade,
foram raras as vezes em que se falou a respeito de pedras de ferro vindas
do céu. O filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.)
imaginou que fossem de origem puramente atmosférica. O nome meteoro
quer dizer, em grego, "elevado no ar", naturalmente associado com o fato
de ocorrerem nas camadas mais elevadas da atmosfera.
Esta visão começou a
passar por profundas transformações rapidamente. Os contínuos
relatos de "pedras que caíam do céu" começou a instigar
a mente dos cientistas modernos. Em particular, o alemão Ernst Florens
Friedrich Chladni (1756-1827) foi um dos primeiros a investigar seriamente
a questão. Como resultado de minucioso estudo que incluiu coleta
de pedras caídas do céu, publicou em 1794 um livro onde afirmava,
corretamente, que pequenas partículas de matéria no espaço
colidiam vez por outra com a Terra. A quantidade de informação
cresceu rapidamente em 11 de novembro de 1799, data do primeiro fenômeno
observado cientificamente, que ocorreu em várias regiões
da América. O relato mais preciso ficou por conta do cientista alemão
Alexander Humboldt (1769-1859). Em sua obra, ficou estabelecido, pela primeira
vez, que as estrelas cadentes de um mesmo enxame aparentavam vir de um
único ponto. Em 1865, o meteorologista R. P. Cregeste chamou o ponto
de onde as pedras aparentavam vir, de radiante.
Um dos mais interessantes pesquisadores
do tema, Edward Herrick (1811-1862), curiosamente não
era astrônomo, sequer completou estudos secundários. Portador
de uma inflamação visual crônica e, portanto, suscetível
ao fracasso nos estudos, seus pais preferiram não dar continuidade
ao seu aprendizado. Portanto, aos 16 anos, trabalhava numa livraria que
atendia aos freqüentadores da Universidade de Yale em New Haven, e
aos 24, já era um dos sócios da livraria. Nos três
anos seguintes, seu negócio enfrentou sérios problemas, até
que teve que encerrá-lo. Na noite de 9 de agosto de 1837, em meio
ao colapso financeiro, Herrick percebeu uma quantidade fora do comum de
meteoros. Era o começo de um trabalho brilhante, que resultou em
importantes resultados para o meio astronômico.
Naquele momento, a sociedade astronômica
em massa voltava-se pela primeira vez para estes objetos ainda incompreendidos.
Estavam então, sob efeito do grandioso espetáculo acontecido
quatro anos antes. Na noite de 12-13 de novembro de 1833, percebeu-se mais
de mil estrelas cadentes por minuto, vindas da constelação
do Leão! Houve quem achasse que todas as estrelas do céu
estavam caindo, como fora previsto no Apocalipse de São João;o
sinal de que o fim dos tempos havia chegado. Até mesmo observadores
menos atentos perceberam este excepcional acontecimento, muito semelhante
a uma tempestade. Herrick começou, então, um profundo estudo
histórico de relatos de chuvas de meteoros. Seu objetivo
era vasculhar, no passado, a existência de semelhante fenômeno
em meados de agosto. Encontrou vários casos, a começar por
acontecimentos verificados no Egito, em 1029, estimulando-o a escrever
um artigo onde previu a existência de uma segunda chuva anual de
meteoros que ocorreria em agosto.
O alemão Heinrich W. Brandes
mediu velocidades de meteoros, encontrando valores que chegaram a 58 quilômetros
por segundo, o que equivale a duas vezes a velocidade orbital da Terra.
Ele ressaltou que este resultado continha importantes implicações,
uma vez que nenhum corpo orbitando ao redor do Sol pode viajar com velocidades
acima de 42 quilômetros por segundo nas proximidades da Terra, do
contrário, este sairia do sistema solar. Portanto, se um meteoro
é visto cortando a atmosfera terrestre com uma velocidade de 58
km/s, é porque deve estar viajando praticamente de frente para a
Terra, ao seu encontro. Herrick questionou-se sobre a possibilidade de
estas colisões desacelerarem a Terra, levando-a à inusitada
situação de espiralar lentamente em direção
ao Sol. Para isso, procurou evidências de que a duração
do ano sofria uma gradual diminuição, o que não ocorreu.
De fato, apesar de seu grande número (estima-se que 25 milhões
de meteoros cruzem a atmosfera terreste todo dia) e velocidade, os meteoros
são corpos de massa desprezível.
Herrick, ajudado por um grupo de amigos,
realizou contagens de ocorrências de meteoros em diferentes épocas
do ano, encontrando que, em média, pode-se ver 20 meteoros por hora,
perfazendo cerca de 3 milhões por dia. O que podemos perceber, estava
bem abaixo das estimativas atuais. E ele não considerou as chuvas
de meteoros! Esta prodigiosa quantidade levou-o a outra conclusão.
Estes corpos deveriam vir de uma região extremamente grande para
sustentar, durante centenas de anos, a periodicidade das ocorrências.
Em seus escritos, já sugeria, corretamente, que as chuvas de meteoros
derivavam de corpos cometários. Esta hipótese viria a ser
confirmada 28 anos depois, quando a conexão entre as órbitas
de cometas e de meteoros seria demonstrada.
Isto se deu em 1864, a partir da pesquisa
do astrônomo norte-americano H. A. Newton, que investigou os meteoros
de novembro e previu a chuva das Leônidas, ocorrida em 1866. Concomitantemente,
oastrônomo italiano Giovanni Virgínio Schiaparelli (1835-1910)
anunciou a semelhança entre as órbitas do cometa 1862 III
e da chuva de agosto, que pode ser percebida pelos elementos orbitais abaixo:
|
Perseidas
|
1862 III
|
| Período |
105 anos
|
123,4 anos
|
| Direção do movimento |
retrógrado
|
retrógrado
|
| Passagem pelo periélio |
1862, julho,13
|
1862,
agosto,22
|
| Distância do periélio |
0.9643
|
0.9626
|
| Longitude do periélio |
343º 28'
|
344º 41'
|
| Nodo ascendente |
138º 16'
|
137º 27'
|
| Inclinação da órbita |
64º03'
|
66º25'
|
Com base nestes números, conseguiu-se,
já em 1875, prever o seu provável retorno em 1985.
Logo em seguida, o astrônomo
francês Urbain Jean Joseph Leverrier (1811-1877) e o astrônomo
inglês John Conch Adam (1819-1892), pesquisando independentemente,
determinaram a órbita dos Leonídios e verificaram ser semelhante
a uma órbita de cometa.
Sabemos que os cometas são corpos
celestes de aspecto nebuloso que apresentam núcleo, coma e cauda
quando se aproximam do Sol. O núcleo pode ter um diâmetro
de até vários metros. À medida que o núcleo
do cometa sublima, ele vai liberando partículas pelo espaço.
Os fragmentos liberados passarão a percorrer a mesma órbita
elíptica que o cometa descreve. Eventualmente, após algumas
passagens do cometa, toda a sua trajetória estará preenchida
por estes restos cometários. Este fato, a origem cometária,
foi definitivamente comprovado pelo astrônomo austríaco Edmund
Weiss (1837-1917), que demonstrou que os Andromedídios seguem a
órbita do cometa de Biela, destroçado provavelmente na década
de 1860. A chuva de meteoros do dia 27 de novembro de 1872 (mais intensa
do que a dos anos anteriores) coincidiu com a data em que o cometa Biela
deveria aparecer, se existisse. Já os Aquarídeos seguem a
órbita do cometa de Halley, constituindo uma forte prova da gradual
destruição do mais conhecido de todos os cometas, com as
repetidas aproximações ao Sol. Orbitando ao redor do Sol,
a Terra, por vezes, encontra estes fragmentos, que por ela são atraídos
por ação de forças gravitacionais, gerando uma chuva
de meteoros.
As chuvas de meteoros são
coleções de partículas que viajam paralelamente umas
às outras. Entretanto, o efeito de perspectiva faz com que elas
pareçam vir de um ponto comum (radiante). Um observador visual
pode, por meio das medidas de direção e velocidade angular
da chuva, associar cada chuva de meteoros a um grupo particular.
Assim, por exemplo, a chuva de meteoros que aparenta vir da constelação
de Órion, é chamada de Oriônidas. As principais
chuvas de meteoros visíveis no nosso hemisfério (Sul) são
mostradas na tabela abaixo:
| Chuva de meteoros |
Data
|
Constelação do radiante
|
Quantidade por hora
|
Cometa associado
|
|
eta Aquáridas*
|
4-6 maio
|
Aquário
|
20
|
Halley
|
|
delta Aquáridas
|
22 julho -
5 agosto
|
Aquário
|
20
|
?
|
|
Oriônidas
|
20-22 outubro
|
Órion
|
25
|
Halley
|
|
Táuridas
|
20 novembro-
20 dezembro
|
Touro
|
15
|
Enke
|
|
Leônidas*
|
16-18 novembro
|
Leão
|
15
|
Temple-Tuttle
|
|
Gemínidas
|
12-15 dezembro
|
Gêmeos
|
50
|
Phaeton (asteróide)
|
*Observadas somente após a meia-noite.
Como curiosidade, o cometa Halley está
provavelmente associado a duas chuvas de meteoros: Eta Aquáridas,
que ocorre em maio, e Oriônidas, em outubro. A incidência de
meteoros tende a ser maior logo após a passagem do cometa responsável
pela chuva, pois neste caso as partículas ainda estão concentradas
em determinados pontos de sua órbita.
Qualquer pessoa interessada pode fotografar a
próxima chuva de meteoros. Para isso, recomenda-se olhar atentamente
para a direção da constelação de Órion,
após a meia-noite. Neste momento, ela estará a meia altura
para o leste. Esta constelação é de fácil identificação,
visto que possui estrelas bem conhecidas, como as Três Marias, estando
próxima da constelação de Cão Maior, onde encontramos
a estrela Sirius, a mais brilhante do céu. Deve-se usar uma câmera
com uma relação distância focal/diâmetro da lente,
baixa, de 1,2 a 2,0. O filme a ser usado deve ser, de preferência,
a partir de 200 ASA. O lugar onde as fotos serão obtidas é
também importante. Dê preferência a lugares onde não
haja interferência luminosa das grandes cidades (serras, sítios,
cidades pequenas). Este último conselho deve ser seguido por aqueles
que desejarem acompanhar o fenômeno a olho nu, o que pode ser, com
uma boa dose de paciência, um belo espetáculo.
Sugestões para leitura:
ASIMOV, I. Guia para entender o cometa Halley, Ed.
Brasiliense, São Paulo, 1985.
MOURÃO, R. R. F. Introdução aos cometas,
Ed. Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1985.
MATSUURA, O. T. Atlas do universo, Ed. Scipione,
São Paulo, 1996.
Sky & Telescope, pág. 68, agosto, 1996.
SCALIZE JÚNIOR, E. A volta do cometa Halley,
Ed. Diagrama & Texto, São Paulo, 1985.
Ref: Fundação
Planetário do Rio de Janeiro
Autor: Paulo C.
R. Pereira (Astrônomo da Fundação Planetário)